Por Lidiane S. de L. Pinheiro*
No primeiro capítulo de Semiosis Social 2 – continuação do livro Semiosis Social, com os resultados de sua tese de doutorado (1987) –, Verón retoma alguns manuscritos e artigos inéditos de Charles Sanders Peirce e delineia conceitos iniciais e ideias que serão retomadas em sua teoria dos signos. O autor também demonstra as pretensões de Peirce construir um trabalho generalista, sobre a razão humana e seus estados mentais. Aliás, para Peirce, tudo poderia ser explicado por sua teoria: fisiologia, neuro, biologia etc., pois tudo tem tendência ao hábito, a seguir leis, a generalizações próprias da terceiridade.
Façamos uma pequena digressão para lembrar que, para Peirce, “há três, e não mais do que três, elementos formais e universais em todos os fenômenos que se apresentam à percepção e à mente”: a primeiridade (ligada ao acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade etc.), a secundidade (aparece em tudo o que tiver relacionado com dependência, determinação, dualidade, ação e reação etc.) e a terceiridade (“diz respeito à generalidade, continuidade, crescimento, inteligência”) (SANTAELLA, 2004, p. 7).
E o que é o signo, para Peirce?
O signo é qualquer coisa de qualquer espécie (...) que representa uma outra coisa, chamada de objeto do signo, e que produz um efeito interpretativo em uma mente real ou potencial, efeito este que é chamado de interpretante do signo. (...) Tanto quanto o próprio signo, o objeto do signo também pode ser qualquer coisa de qualquer espécie. Essa ‘coisa’ qualquer está na posição de objeto porque é representado pelo signo. O que define signo, objeto e interpretante, portanto, é a posição lógica que cada um desses três elementos ocupa no processo representativo (SANTAELLA, 2004, p. 8).
Com os principais conceitos da teoria peirciana relembrados, podemos agora voltar a Verón. Ele inicia o texto contextualizando o leitor sobre o espaço da escritura de Peirce: seu caráter experimental, sem destinatário específico – o que talvez explique a dificuldade de leitura de seus textos – e a atualidade e imensidade (ou ambição) do alcance de sua obra.
A semiótica peirciana é designada como campo das ciências humanas e sociais, mesmo que tenha tido por base a Lógica e a Matemática – das quais surgiram as categorias de primeiridade, secundidade e terceiridade, que se transformaram em modelo geral dos processos cognitivos.
Verón cita uma conferência realizada por Peirce, na American Academy of Arts and Sciences, no ano de 1867, e publicada no ano seguinte (“Sobre uma nova lista de categorias”), na qual evoca a ideia de formar uma concepção, cuja função “é reduzir a diversidade das impressões sensíveis à unidade”(1) (p. 26), a fim de unificar o conteúdo da consciência. Ele explica que as concepções universais mais gerais são a existência e a substância, entre as quais encontramos as categorias de qualidade, relação e representação, sempre presentes no conhecimento de um objeto; e que “o signo é esse dispositivo que torna possível a passagem da existência à substância” (p. 27). Isso nos faz recordar que a definição peirciana do signo inclui três teorias: a da significação (ou seja, da natureza do seu fundamento; da relação do signo consigo mesmo; daquilo que lhe dá capacidade para funcionar como tal), a da objetivação (da relação do fundamento com o objeto que representa) e a da interpretação (da relação do fundamento com o interpretante) (SANTAELLA, 2004).
É muito claro que um fenômeno da categoria da representação, pertencente à teoria da interpretação, é um signo, mesmo porque ele completa a tríade signo-objeto-interpretante; mas e quanto às outras categorias, da qualidade (que nos remete ao fundamento de algo) e da relação (que nos remete à simples relação de uma coisa com outra, antes de gerar quaisquer efeitos interpretativos), não seriam elas signos e, sim, apenas concepções? “Esta não foi a posição de Peirce, para quem ‘pensamento’ é sinônimo de signo”, explica Verón (p. 28). Aliás, “todo raciocínio é uma interpretação de signos de alguma classe” (p. 30).
No manuscrito “O que é um signo” (1984), Peirce nos convida a conhecer os três estados mentais com os quais lidamos no dia-a-dia: 1º. O puro sentir (feeling) – como quando temos na mente uma cor qualquer (o roxo, por exemplo); sem relacioná-la a nada; apenas o puro estado de contemplação. 2º. A reação a algo (reaction) – como o sobressalto de alguém ao ouvir o barulho repentino de uma porta. 3º. O pensamento ou raciocínio sobre alguma coisa, governado por uma regra geral (thinking) – como a investigação do porquê de determinado barulho. Sensação, reação e pensamento/raciocínio são a nova apresentação das três categorias anteriores, agora descritas como estados mentais. Pensemos em um exemplo: a experiência num museu de arte contemporânea, onde podemos passar por esses três momentos, de forma sequencial – primeiro, contemplamos; depois, reagimos, afastando-nos ou nos aproximando da obra; e, por fim, a interpretamos – ou podemos nos centrar em um desses estados mentais – apenas contemplando a obra; tocando-a, nos casos de instalações; ou refletindo sobre ela e sobre suas condições de produção.
Voltando a Verón, na sequência do texto, ele aponta uma mudança conceitual de Peirce, de um parágrafo a outro, quando o autor introduz a noção de interesse, pois os exemplos anteriores não envolviam interesse do intérprete: o homem que sonha com a cor roxa ou o que reage ao barulho da porta não o fazem por uma questão de interesse. “Os ‘três tipos de interesse’ qualificam três tipos de coisas que podem ser focalizadas pela mente como primeiras, segundas ou terceiras” (p. 32). Diante disso, ele apresenta duas leituras possíveis: 1. a de que a primeiridade e a secundidade são estados mentais e não signos; então, só o estado mental da terceiridade seria signo. 2. (com a qual compartilha) todo estado mental é semiótico, ou seja, é de terceiridade; a primeiridade e a secundidade são também processos de produção de sentido. Sensação, reação ou pensamento, as três dimensões básicas de toda atividade cognitiva do homem seriam, então, semióticas. Logo, mesmo que nem tudo seja pensado como signo, todo estado mental é signo – mesmo porque a mente é o encadeamento das ideias (que são signos) numa semiose infinita (p. 36).
Por fim, Verón chama a atenção para os três tipos de funcionamento mental: a abdução, que consiste em criar conjecturas, sugerir uma teoria explicativa; a indução, método que vai do particular ao geral; e a dedução, do geral ao particular. Assim, a abdução é a busca da teoria e a indução é a busca dos feitos. Referindo-se aos três tipos de signo na sua relação com o objeto que representa, Verón elucida que a abdução é uma inferência através do ícone (signo de primeiridade que lembra seu objeto por algum traço de semelhança), pois ela sugere que algo “pode ser”; a indução, inferência através do índice (signo de secundidade que indica seu objeto), pois mostra que algo “é”; e a dedução, inferência através do símbolo (signo de terceiridade que representa seu objeto por convenção), pois prova que algo “deve ser” (p. 45).
Verón conclui o capítulo ratificando a atualidade do pensamento de Peirce na passagem do século XIX ao XX, momento de nascimento do que iria ser chamado de ciências humanas e sociais; assim como, no começo do terceiro milênio, “sua atualidade é diretamente proporcional ao atraso que teve a difusão de suas ideias ao longo do século passado” (p. 47).
1 Todas as citações do texto (originalmente, em espanhol) terão traduções nossas.
2. Em azul alguns trechos que são digressões minhas (ou baseadas em Santaella) a fim de esclarecer certos conceitos para os menos familiarizados com Peirce.
*Lidiane Santos de Lima Pinheiro é professora adjunta do Curso de Comunicação Social/Relações Públicas da UNEB (Universidade do Estado da Bahia) e pesquisadora integrante dos grupos de pesquisa CEPAD-UFBA (Centro de estudos e pesquisa em Análise de Discurso) e LOGOS-UFBA (Comunicação estratégica, marca e cultura)
REFERÊNCIAS
VERÓN, Eliseo. La abducción fundante. IN: La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Bienos Aires: Paidós, 2013. P. 23-47.
SANTAELLA, Lucia. Semiótica aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson, 2004.