Gregory Bateson

Gregory Bateson

Por Marília Moura*

No segundo capítulo de La Semiosis Social 2, Verón revisita algumas ideias do antropólogo Gregory Bateson que influenciaram seus primeiros trabalhos de investigação no campo da psiquiatria social e atualiza a evolução de alguns aspectos da teoria batesoniana.

Inicialmente Verón observa que a obra de Bateson, em muitos aspectos, pode ser considerada em continuidade com a teoria de Peirce, embora as referências de Bateson ao fundador da semiótica sejam quase inexistentes. Por outro lado, as referências ao filósofo Bertrand Russell são frequentes, mas Verón ressalta que o vínculo conceitual entre Bateson e Russell é tênue e que não iria além da teoria dos tipos lógicos que Bateson retomou e a partir da qual desenvolveu o conceito de duplo vínculo.

Esse conceito seria o resultado de uma interação familiar em que o indivíduo está envolvido numa relação de importância vital e encontra-se prisioneiro, “vinculado” a outra pessoa, geralmente a mãe, que emite mensagens de duas ordens, uma das quais nega a outra. A criança é punida se discrimina corretamente as mensagens da mãe, e é punida se as discrimina de modo errado, é tomada por um duplo vínculo (CANEVACCI, 1990).

Os atores presentes devem ser, pelo menos, dois: o que Bateson chama a ‘vítima’ e a mãe que ‘inflige’ o duplo vínculo, em geral sozinha, mas às vezes na companhia do pai ou dos irmãos […] Esse tema recorrente consiste, para a vítima, em três injunções: uma primeira, de caráter negativo, do tipo: “Não faça assim, porque senão o punirei”; onde por punição se entende a negação do afeto ou uma demonstração de ódio ou de cólera […] Uma injunção secundária, em conflito com a primeira […] o tipo de comunicação é não verbal e se transmite com a atitude, o gesto, o tom da voz, etc. Por exemplo: ‘Não considere isso uma punição’, ‘Não me considere um castigador’, etc. Uma injunção negativa terciária que impede a vítima de fugir ao conflito. […] a criança não desenvolve a capacidade de “comunicar sobre a comunicação”, pelo que se torna incapaz de determinar o verdadeiro significado do que os outros dizem e de exprimir o que ela mesma entende […] isso no âmbito de uma relação que é a mais importante da sua vida e constitui um modelo para todas as outras relações (CANEVACCI, 1990, p. 39 e 40).

Em um texto de 1946, Bateson reuniu tópicos que representam grande parte de sua problemática teórica e empírica, alguns deles seriam: 1- A distinção entre comportamento e contexto, mensagem e contexto; 2- A classificação dos comportamentos e dos contextos. Ex.: A “vaidade” não é um comportamento, mas uma classe de comportamentos; 3- As informações sobre o comportamento e as informações sobre o contexto correspondem a níveis diferentes da comunicação; 4- A problemática dos modelos de aprendizagem como a articulação entre comportamento e contexto (nível microscópico) e indivíduo e sociedade (nível macroscópico); 5- O intercâmbio como unidade de análise, porque o sentido não é uma qualidade do comportamento considerado em si mesmo, mas é dado pela resposta dos outros atores presentes; 6- A dinâmica entre uma lógica de convergência que dá conta da coerência interna de uma sociedade, e por outro lado, uma lógica qualitativa entre os modelos de aprendizagem predominantes nas distintas sociedades, da qual resultam as profundas diferenças entre as culturas; 7- A oposição entre: qualitativo x quantitativo, número x quantidade, digital x analógico e estrutura x processo.

Verón observa que os pontos 1,2 e 3 abrangem os processos microscópicos de interação, definem a metodologia para os intercâmbios interindividuais. Para Bateson, uma informação é o registro de uma diferença, assim ele caracteriza uma unidade de análise referente aos itens 1,2 e 3. Essa unidade batesoniana que define a informação é uma tríade, afinal a diferença entre duas coisas só existe registrada por uma terceira. O mesmo vale para a sequência mínima do intercâmbio nas situações de aprendizagem: “estímulo-resposta-reforço”. No uso que Bateson faz desse esquema para discutir a problemática da aprendizagem (pontos 4 e 5), é possível reconhecer os três componentes da tríade peirciana: a primeiridade do estímulo, a secundidade da reação-resposta e a terceiridade normativa do reforço. Entretanto, Verón afirma que Bateson não percebeu com clareza essas tríades e isso teria afetado sua concepção de mente.

Para Bateson, a mente de um organismo é um agregado de diferenciação. Essa mente é imanente à matéria, está em parte dentro do corpo, porém também está fora, sob a forma de registros e elementos perceptíveis. Assim descrito, o conceito de mente é inseparável do conceito de organismo e abarca tanto o corpo do organismo como as marcas que este exterioriza. Verón ressalta que isso resulta em contradição, pois Bateson afirmou que uma diferença não é material e não pode ser localizada. Entretanto, existe a materialização, um registro interno, neuronal.

Verón destaca uma mudança epistemológica de Bateson e faz uma breve retrospectiva dos estudos do pesquisador para explicá-la. Segundo o autor, durante os anos de 1950 até meados da década de 1960 Bateson concentrou seu trabalho no campo da psiquiatria social. Esse trabalho resultou na teoria da esquizofrenia e o modelo do duplo vínculo. Estes estudos conhecem uma difusão maior com o lançamento de Steps to an Ecology of Mind (Passos para uma Ecologia da Mente). Até esse momento, o que sustentava o projeto teórico de uma ecologia da mente era o estudo dos processos microscópicos da comunicação interpessoal, em particular seus aspectos patogênicos.

A originalidade desta posição era abordar os transtornos mentais a partir de uma nova perspectiva, como transtornos de aprendizagem (inspirada na problemática dos tipos lógicos de Russell). Porém, para fundar uma ecologia geral da mente, Bateson precisaria ir muito além do nível microscópico da aprendizagem e do intercâmbio, deveria ir além da antropologia.

Em Mind and Nature, Bateson formula hipóteses biológicas. O problema antropológico de pensar a articulação indivíduo-sociedade é pensado sob a forma organismo-espécie a que pertence. Bateson produz um “monismo mentalista” ao afirmar que “o pensamento e o processo da evolução das espécies são idênticos […] porque ambos são processos mentais segundo os critérios expostos”. Verón observa que nenhuma das versões da teoria darwiniana contém o mínimo elemento conceitual que possa justificar a qualificação de ‘mental’ ao processo da seleção natural.

O paralelo proposto por Bateson entre mente e natureza, implicaria na existência de dois sistemas estocásticos (cujos processos são aleatórios, submetidos ao controle do acaso). Eles seriam parcialmente autônomos e funcionariam parcialmente em interação. Um estaria situado no interior do indivíduo – a aprendizagem – e o outro funcionaria como herança para uma população – a evolução. Para Bateson, a lógica genética da evolução seria um processo digital, enquanto a aprendizagem, determinada pela interação do fenótipo com o meio ambiente, seria um processo quantitativo e analógico. Para ele, o rigor seria para o pensamento o que a coerência interna é para a evolução. A aprendizagem compreenderia não somente o cérebro do indivíduo, mas também sua interação com o meio ambiente.

Verón não explica o que fez Bateson transformar um isomorfismo entre as transformações da evolução cerebral e as leis da seleção natural, afirmando que a evolução é um processo mental. Porém, o autor imagina que talvez Bateson tenha deixado um paradoxo: se a evolução biológica tem a mesma configuração que nossos processos mentais é porque talvez essa seja a única maneira que o cérebro do ser humano tem de conceitualizar seu entorno como espécie.

*Graduada em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura, pela Universidade Federal da Bahia com a monografia. “Em busca de uma metodologia para quadrinhos: uma análise da série Quase Nada “.

REFERÊNCIAS:

VERÓN, Eliseo. Procesos mentales. IN: La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 49-63.

CANEVACCI, Massimo. Antropologia da Comunicação Visual. SP: Brasiliense, 1990, p. 39 e 40.