Lévi-Strauss­_Pierce

Claude Lévi-Strauss e Charles Sanders Peirce

Por Ivanise Hilbig de Andrade*

Eliseo Verón, no capítulo 4 do livro ‘La semiosis social 2’, realiza uma releitura da obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss à luz do pensamento triádico de Charles Sanders Peirce. Considerado um dos fundadores do Estruturalismo a partir de sua antropologia estrutural de inspiração saussureana, Lévi-Strauss desenvolve todo seu sistema teórico de pensamento em uma base diádica e, embora não tenha realizado trabalhos no campo da semiologia, sua influência intelectual para os linguistas, nos anos 1960,  era enorme.

Para Verón, a obra de Lévi-Strauss “pode ser considerada em continuidade estratégia com a de Peirce, embora de uma maneira indireta e implícia, para não dizer tortuosa, em razão da centralidade que o modelo da matriz binária e suas transformações sempre teve no pensamento de Lévi-Strauss” (p. 78). Em seguida, o autor alerta que se interessará, ao longo de sua reflexão, pelos “efeitos históricos a respeito da problemática das fronteiras da semiótica e da relação entre uma teoria dos signos com o campo geral das ciências” (p. 78).

Em sua análise, Eliseo Verón se dedicou à releitura do que ele próprio considerou o “essencial” da obra do autropólogo francês: Les strutures élémentaires de la paranté (1949) em que realiza um estudo sobre as estruturas de parentesco e a proibição do incesto, chegando à reflexão acerca da oposição Natureza x Cultura; Anthropologie structurale (1958) em que descreve uma metologia para a antropologia estrutural; La pensée sauvage (1962), obra em que Lévi-Strauss realiza uma reflexão sobre o conhecimento humano como característica da espécie, separando-o em pensamento selvagem e pensamento domesticado; e os quatro volumes de Mythologiques (publicados entre 1964 e 1971), um vasto estudo sobre os mitos.

Verón inicia sua reflexão pela oposição entre pensamento selvagem e pensamento domesticado, presente no primeiro capítulo da obra La pensée sauvage, sugerindo a possibilidade aproximação entre o binarismo de Lévi-Strauss com o triadismo peirceano. Segundo ele, o pensamento selvagem é a ciência do concreto, da lógica e do sensível (da percepção e imaginação), enquanto que o pensamento domesticado é a dimensão cognitiva, dos conceitos abstratos. Mas que entre esses dois pólos haveria um terceiro elemento que faria a bricolage (algo na modernidade que se mantém sempre a meio caminho entre percepção e conceito) e cita Lévi-Strauss: “existe um intermediário entre a imagem e o conceito: é o signo, posto que se pode sempre definir, do modo inaugurado por Saussure a propósito desta categoria particular que formam os signos linguísticos, como um vínculo entre uma imagem e um conceito que, na união assim realizada, assumem respectivamente os papéis de significante e significado” (Lévi-Strauss, 1962, p. 28 apud Verón, 2014, p. 82).

Dessa forma, haveria no raciocício de Lévi-Strauss, segundo Eliseo Verón, uma tríade: imagem, signo, conceito. Mas que, se comparado à tríade peirceana apresentaria alguns problemas, como o próprio conceito de signo. “Por um lado, curiosamente, a noção de “signo” ocupa o lugar de segundo (o qual não é contraditório com a semiótica de Peirce, porque o objeto do signo é, por sua vez, um signo). Por ouro lado, por implicação, os outros termos (a primeiridade da imagem e a terceiridade do conceito) não seriam signos (o que contradiz claramente o ponto de vista de Peirce).” (p. 83). Para Verón, bastaria que Lévi-Strauss se liberasse da noção saussureana de signo linguístico para chegar às três dimensões ou momentos da semiose.

A “triadização” do pensamento de Lévi-Strauss, segundo Verón, aparece no final do capítulo citado acima, quando o antropólogo introduz a questão da arte como a “meio caminho entre o conhecimento científico e o pensamento mítico ou mágico” (Lévi-Strauss, 1962, p. 33 apud Verón, 2013, p. 83), conduzindo a três grandes tipos de discursos: arte, mito e ciência. O que, na interpretação de Eliseo Verón, pode ser lido como uma tríade peirceana: “a arte opera como a primeiridade e permite definir a emoção estética, o mito trabalha na secundidade, produzindo relatos e a ciência se interessa pelas leis (o que para Lévi-Strauss é da ordem das estruturas).

Segundo Verón, a partir de tais reflexões, Lévi-Strauss estaria antecipando (em 1962), “os efeitos do pensamento e da tecnologia informática na epistemologia da ciência contemporânea ao assinalar a nascente convergência entre as modalidades da cognição humana, o pensamento selvagem e o pensamento domesticado” (p. 86), ao afirmar que “todo o processo do conhecimento humano adquire, assim, o caráter de um sistema fechado” (Lévi-Strauss, 1962, p. 357).

Verón localiza ainda, na parte final do volume 4 de Mythologiques, a partir da reflexão de Lévi-Strauss acerca do paralelo entre o discurso mítico e o discurso musical, “construído em sua maneira habitual de oposições binárias em um espaço cartesiano bidimensional”, três posições que representam três zonas da discursividade social. As matemáticas, que se articulam com a discursividade da ciência moderna, a discursividade mítica, característica de um longo período pré-moderno da espécie humana e a discursividade musical, que começa a adquirir um peso socio-cultural cada vez maior no início da modernidade (p. 89-92).

Por fim, é possível perceber que Eliseo Véron constrói toda uma argumentação embasada nas obras de Claude Lévi-Strauss para concluir que o modelo saussuriano de signo parece insuficiente para dar conta da complexidade que se vislumbra atualmente com a mediatização da semiose e a redução da fronteira entre frase e discurso. E então “a linguística deixa de cumprir o papel de mediadora privilegiada entre as ciências humanas e as ciências naturais, que esteve na origem do estruturalismo” (p. 93).

*Ivanise Hilbig de Andrade é doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), mestre em Estudos de Linguagens (UFMS), pesquisadora do CEPAD e consultora do CCDC (Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania).

REFERÊNCIA
VERÓN, Eliseo. Binarismo y triadismo. In: La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Bienos Aires: Paidós, 2013. P. 77-93.