
Charles Sander Pierce (esquerda); Gerald Edelman (direita acima) e Jean-Marie Schaeffe (direita abaixo)
Por Cássio Santana
No sétimo capítulo de La Semiosis Social 2, Verón tenta identificar “influências” da obra de Charles Sander Pierce em duas obras de campos de atuação distintos. Com efeito, são elas: Second Nature, Brain Science and Human Knowledge, de Gerald Edelman (2006), inserida nos estudos sobre desenvolvimento da neurobiologia e da teoria cognitiva anglo-saxônica; e La Fin de l´exception Humaine, de Jean-Marie Schaeffe (2007), localizada no horizonte filosófico-semiótico francês. “Para um e outro autor, trata-se de uma série de livros que desenvolvem um marco teórico geral, que no caso de Edelman é conhecido como o “darwinismo neural”, e que em Jean-Marie Schaeffe se apresenta como uma crítica radical dos fundamentos da estética. Embora a forte heterogeneidade destes dois livros, veremos que suas problemáticas se superpõem consideravelmente” (VERÓN, 2013, p. 121) (tradução nossa). Segundo Verón, devido à marginalidade à qual foi relegada os trabalhos de Peirce, sobretudo no ambiente acadêmico, a produção peirceana foi colocada de lado, bem como suas reverberações em trabalhos posteriores. Não obstante, Verón consegue visualizar o “fantasma” de Pierce em outras obras, muito embora o próprio Pierce não seja citado ou devidamente referenciado. Um exemplo, de acordo com Verón, são os dois trabalhos supracitados, que não deram o crédito devido à influencia peirceana ou relegaram-na a um plano secundário. Gerald Edelman Em seu percurso, Edelman busca mostrar que o darwinismo neural proporciona uma adequada teoria da consciência, que completaria a teoria de Darwin.. Se lhe opõe, contudo, o binarismo cartesiano, bem como as derivações e reverberações teórica deste pensamento. O principal adversário de Edelman era a Strong AI Theory, que afirmava que os processos cerebrais eram de caráter algorítmico, como um computador complexo. O darwinismo neural de Edelman tem três princípios que definem o funcionamento do cérebro humano.
- Desenvolvimento seletivo (desarrollo selectivo) – “O desenvolvimento dos circuitos neurais no cérebro leva a enormes variações anatômicas microscópica, que resultam de um processo contínuo de seleção […]” (p.124) (tradução nossa).
- Desenvolvimento experiencial (dessarrollo experiencial) – “[…] o gerador de diversidade que é o processo de desenvolvimento seletivo encontra sinais de um mundo desconhecido […] através de seu repertório de grupos neurais, e facilita a ampliação diferencial daquelas conexões de grupos neurais que são adaptativos” (p.124) (tradução nossa)
- Reentrada – “[…]consiste no permanente envio de sinais, em ambos os sentidos, de uma região do cérebro a outra, através de uma complexa rede de fibras paralelas que são onipresentes em cérebros superiores” (p.125) (tradução nossa)
Percebe-se que, como a semiótica de Peirce, o darwinismo neural busca dar conta de todas as modalidades do pensamento. Tem-se um sistema caracterizado por processos não lineares, mas paralelos, de uma enorme complexidade. Isto é, refuta-se a tese de que o cérebro seria um computador, com processos binários e lineares. Obviamente, torna-se evidente a referência à tríade peirceana. Jean-Marie Schaeffe O livro La Fin de l´exception Humaine, de Jean-Marie Schaeffe, trata das consequências históricas do dualismo cartesiano. Schaeffe chama de “Tesis de la exception humaine”, ideia na qual o livro está às voltas, que “afirma que, em sua essência propriamente humana, o homem possuiria uma dimensão ontológica emergente em virtude da qual transcenderia outras formas de vida e sua própria natureza” (p.134). O dualismo cartesiano coloca corpo e alma como os dois componentes irredutíveis do ser humano. A ideia de cogito restringido e ampliado são os alicerces do pensamento de Descartes, que são refutados por Schaeffe. O cogito restringido seria irreparável e irrefutável, exemplificaria existência de quem pensa uma vez impossível a negação do ser, dado que a própria negação é um ato de pensamento. O cogito ampliado tem três dimensões: 1) o cogito é o princípio fundador de uma ciência do entendimento; 2) que sua natureza é a de um ser pensante; 3) que o pensamento é radicalmente distinto da extensão, do corpo. “Descartes tenta prova que, em primeiro lugar, o cogito é o princípio absolutamente primeiro e autofundador de uma ciência do entendimento; em segundo lugar, que sua natureza é a de um ser pensante; a terceira, o que o pensamento é radicalmente distinto da extensão, da res extensa, e, portanto, do corpo” (p. 137) (tradução nossa) No que diz respeito ao primeiro ponto, Schaeffe acredita que o cogito já pressupõe instrumentos cognitivos da lógica “penso, logo sou”; bem como, de uma maneira mais geral, a álgebra e geometria, que estruturam o arrazoado do cogito. Para refutar a segunda hipótese, Schaeffe usa o que se chama “auto-atribuições errôneas” e crises de identidades múltiplas, “para mostrar que não se pode postular que o ser que anuncia está livre de qualquer “hetero-determinação” que poderia está operando sobre ele”. (p.138). No que se refere à terceira, Schaeffe mostra que a corporeidade não pode ser provada pelo cogito. “Se não penso, não sou. Pois bem, em boa lógica, do penso logo existo, posso inferir ‘se não existo, não penso’, mas não ‘se não penso não existo’, que é a proposição necessária para fundar o pensamento como essência primeira humana”. (p138). Verón nos mostra que Peirce, muito antes, já havia refutado a dualidade cartesiana através de escritos publicados em 1868, no Journal of Speculative Philosofhy. Sintetizados, temos que:
- Não temos poder de introspecção, uma vez que todo conhecimento do mundo deriva , por razão hipotética, de nossos conhecimentos de fatos externos
- Não temos poder de intuição porque toda a cognição está logicamente determinada por cognições anteriores
- Não podemos pensar sem signos
- Não podemos conceber o absolutamente inconcebível
Em conclusão, Verón tem a semiose como parte constitutiva da evolução geral da vida tal qual conhecemos. O conhecimento que podemos adquirir a partir da semiose é local, externo e falsificável. Referências VERÓN, Eliseo. Viajes al centro de la ciencia. In: La Semiosis Social 2: ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 121-142.