Por Ivanise Andrade
A teoria das operações enunciativas de Antoine Culioli e sua problemática acerca das relações é apresentada por Eliseo Verón, no capítulo 6 do livro La Semiosis Social 2: ideas, momento, interpretantes, como uma teoria que foi capaz de abrir novas problemáticas e perspectivas nos estudos linguísticos. Inspiração e suporte teórico-metodológico para diversas análises elaboradas por Verón, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, a obra de Culioli é considerada uma ruptura de paradigmas, pois rompe com a tradição saussuriana – na distinção língua-fala – e também com o transformacionismo de Chomsky – e seu sistema fechado de regras gramaticais.
Para Verón, uma das dimensões fundamentais que fazem com que uma teoria deva ser considerada pertinente é sua maior ou menor capacidade de abrir problemáticas e perspectivas. Certos desenvolvimentos teóricos tem a virtude de sugerir articulações com outros modelos, com outros problemas de outras disciplinas, enquanto muitas teorias se isolam. Foi o que aconteceu com a linguística do século XX que, em vários momentos, se fechou em o que Verón chama de um “ismo”: saussurianismo, sociologismo, funcionalismo, estruturalismo, transformacionismo. O que é compreensível, admite Verón, em se tratando de uma ciência que estava em fundação, em busca de institucionalizar-se como disciplina autônoma. Entre essas correntes, o estruturalismo saussuriano e o transformacionismo chomskyano foram dois grandes paradigmas que dominaram a linguística no século XX.
Nesse contexto, o linguista Antoine Culioli desenvolve sua teoria provocando uma “dupla ruptura”, tanto com a tradição saussuriana quanto com o trabalho de Chomsky, e estabelecendo uma “mutação conceitual” (VERÓN, 2013, p. 111). Em um momento de transformações dentro do próprio campo da linguística, que deixa de ser uma ciência “modelo” ou “piloto” para ver suas questões imersas em fronteiras mais ampliadas. Os problemas deixam de ser considerados propriamente linguísticos, o que passa a exigir pesquisas cada vez mais transdisciplinares.
Culioli – uma nova maneira de praticar a linguística
Para Verón, considerando o cenário descrito, Antoine Culioli é o representante de mais destaque de uma nova maneira de praticar a linguística: apartado do horizonte clássico e cultivando contatos interdisciplinares (VERÓN, 2013). Isso porque Culioli rejeita a distinção entre língua e fala (fonte histórica das dificuldades para articular corretamente os níveis de descrição da semiose, acredita Verón), dizendo não ser uma distinção ‘cientificamente interessante’, e combate a perspectiva chomskyana que opera por simplificação e se contenta em estudar o “esqueleto”.
Verón define o pensamento de Culioli não como um pensamento dos termos, mas das relações. Sua visão é sistêmica e complexa, tendo como objeto a atividade linguageira (do francês l’activité langagière). “A abertura do espaço teórico da atividade de linguagem permite, em apenas um movimento conceitual, evitar a subjetivação da linguística e a reificação de um sistema fechado” (VERÓN, 2013, p. 113). O abandono do sujeito falante como fonte final do sentido e a recusa ao ‘esqueleto’ de Chomsky são os aspectos de uma mesma busca de Culioli. Em suas palavras: “A linguística tem por objeto a atividade de linguagem apreendida através da diversidade de textos, orais ou escritos” (CULIOLI, 2010, p. 72 apud VERÓN, 2013, p. 115). O que distancia essa perspectiva de Culioli da de Saussure acerca dos “atos de fala” é que a “atividade linguageira” se situa no paradigma contemporâneo da complexidade, considerando a diversidade de textos, dispositivos e produções.
Esta perspectiva de atividade de linguagem apreendida através da diversidade das línguas contém, segundo Verón, um princípio fundamental: a noção de território (que pode ser lido também como uma noção de contexto ou de condição de produção do discurso). “A precisão relativa à ‘diversidade de textos, orais e escritos’ diz que vamos muito mais além da fala saussuriana, entendida como a produção oral de um sujeito falante que se encontra em uma situação indefinida (VERÓN, 2013, p. 116).
A atividade linguageira segundo Culioli é uma atividade:
- de construção de representações
- de referênciação, e
- de regulação
Essas três dimensões da atividade linguageira estão presentes sejam quais forem as dimensões do produto da atividade (um comentário, uma discussão científica, uma aula, uma notícia, uma obra de arte). A relação triádica entre representação mental, processos de referenciação e de regulação, é um pré-requisito de toda atividade simbólica mediada por sequências de texto e/ou gestuais. Essa relação deixa marcas nos enunciados, permitindo ao analista reconstruí-la. Assim:
“Minha hipótese é que os enunciados exibem marcas [shapes] que derivam de formas [forms] complexas que o linguista reconstrói através de uma modelização. O objetivo é colocar em evidência o trabalho formal que subjaz à produção e ao reconheicmento dessas marcas interpretáveis, a saber, os enunciados. Não temos acesso aos processos que originam as formas nas quais estão baseadas as marcas, mas dispomos dos rastros textuais [textual traces] que indicam esses processos (CULIOLI, 1999-2007, vol. 1, p. 178 apud VERÓN, 2013, p. 117)¹.
O trabalho do analista tem como desafio, assim, “homongeneizar a heterogeneidade empírica da atividade de linguagem sem deixar pelo caminho a complexidade dos processos” (VERÓN, 2013, p. 117). O que conduz o analista de discursos mediáticos a uma perspectiva construcionista de análise, de reconstrução de operações de enunciação a partir das marcas e pistas deixadas no enunciado.
De acordo com o percurso teórico de Culioli, o trabalho do analista se processa em três níveis (VERÓN, 2013, p. 117-118):
– Nível 1 é o do funcionamento cognitivo dos sujeitos: processos mentais de representação, de referenciação e de regulação inter-sujeitos. O primeiro nível não é acessível ao analista.
– Nível 2 possibilita o acesso empírico à diversidade das línguas e dos textos, onde estão os traços das operações inacessíveis do primeiro nível.
– No nível 3 se constróem os modelos teóricos (metalinguísticos) que são as hipóteses acerca da relação entre os níveis 1 e 2.
Uma análise, portanto, configura-se como uma produção discursiva (nível 3) de reconstrução de marcas e pistas encontradas nos enunciados (nível 2) e que explicam ou sugerem a relação entre os processos cognitivos do sujeito (nível 1) com o que realmente foi exteriorizado na materilidade de um suporte ou dispositivo de comunicação (relação entre os níveis 1 e 2).
Os que se interessam pelas discursividades sociais, reflete Verón, se encontram nessa mesma encruzilhada descrita por Culioli:
“As relações de um tipo de discursividade com suas condições de produção, por um lado, e suas condições de reconhecimento, por outro, implicam processos cognitivos que são inacessíveis, mas que também levam, por definição, a regulações (linguísticas e não linguísticas) entre os atores, articulados em múltiplas redes institucionais. Para trabalhar com objetos discursivos, não há outro caminho além de conceituar e identificar as configurações dos traços que deixaram, no discurso, operações cognitivas que temos de demandar sob a forma de gramáticas discursivas, incompletas e necessariamente fragmentárias, porque se trata de objetos históricos. A insistência de Culioli na flexibilidade característica da atividade de linguagem expressa a mesma preocupação em não abandonar a complexidade não linear dos processos da semiose, por ter sempre em mente que enfrentamos o desafio de descrever e explicar processos em que a deformação é tão importante quanto a estabilidade, a divergência tão crucial quanto a convergência (VERÓN, 2013, p. 118, tradução nossa).
Para concluir, Verón retoma e concorda com Culioli sobre como analisar fenômenos discursivos tão heterogêneos: evitando a “ilusão” de unidade da consciência subjetiva, que faz desaparecer o social, e resistir à “tentação” de reificar o sistema, que ignora a complexidade dinâmica da semiose (2013, p. 119) .
Notas:
- O termo ‘forma’ reenvia a um ordenamento de marcadores de operações, e não simplesmente à morfologia (CULIOLI, 1999-2007, vol 1, p. 137)
Referências:
CULIOLI, Antoine. Pour une linguistique de l’énonciation. Paris, Ophrys, 4 volumes, 1997-2007.
________. Variations sur la linguistique. Paris, Klincksieck, 2002.
________. Escritos. Buenos Aires, Santiago Arcos, 2010.
VERÓN, Eliseo. Actividad de lenguaje y procesos cognitivos. In: La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Bienos Aires: Paidós, 2013. P. 109-119.
