Por Ivanise Andrade
No capítulo 5 de La Semiosis Social 2 (2013), último livro de Eliseo Verón, o autor realiza uma releitura da obra do semiólogo francês Christian Metz, encontrando nele contribuições para o estudo da enunciação e aplicação de modelos linguísticos a fenônemos mediáticos. Metz desenvolveu toda sua teoria para análise do cinema, no entanto, suas reflexões podem ser aplicadas a análises de outros produtos mediáticos.
Na década de 1960, Metz se perguntava sobre a diferença entre língua e linguagem, e respondia que o “cinema é linguagem sem lingua, mensagem rica com códico pobre, texto rico com sistema pobre” (VERÓN, 2013, p. 95). Em atualizações posteriores, Metz reformularia esse raciocínio considerando um plano de um filme como um conjunto de frrases, estas entendidas como uma unidade da língua. “Agora, bem, a imagem (pelo menos a do cinema) equivale a uma ou a várias frases, e a sequencia é um texto complexo de discurso” (METZ, 1968, P. 70 apud VERÓN, 2013, p. 96). Nesse momento, “discurso” é um termo que aparece pouco na reflexão de Metz e por vezes associado a Benveniste, já que o conceito não fazia parte, nos anos sessenta, das oposições binárias do saussurianismo. Para Verón, Metz foi o autor que teve consciência mais clara dos limites dos modelos linguísticos de tradição saussuriana. Primeiro ao comprender que o cinema não é redutível a modelos linguísticos, e depois por adotar a semiologia como um modelo translinguístico para análise do cinema.
Verón esquematiza a evolução do pensamento de Christian Metz em dois movimentos de elaboração teórica: um quando Metz se liberta do horizonte saussuriano-benvenistiano e outro quando formula os termos gerais de uma teoria “aberta e translinguística do discurso cinematográfico”. Com essa virada teórica, encerra questão sobre a imanência do texto fílmico e constrói uma posição em ruptura com a semiose social.
No primeiro capítulo do seu último livro, Metz (1991, p. 11-36) denuncia o que Verón considera subjetivação: “é essa tendência irresistível de personalizar as instâncias da enunciação, a imaginar ‘alguém’ por trás da produção dos textos fílmicos”. E afirma: “os lugares da enunciação – de uma enunciação puramente textual – são sem dúvida concebidos na maioria dos casos como espécies de pessoas […]. Palavras como “enunciador” e “enunciatário” contém conotações antropomórficas difíces de evitar e particularmente lamentáveis em diferentes domínios, sobretudo no cinema, onde tudo repousa sobre as máquinas” (METZ, 1991, p. 12 apud Verón, 2013, p. 99).
A crítica de Metz recai sobre uma concepção dêitica de análise da enunciação. Para Verón, o autor francês estava convencido de que a teoria da enunciação de Benveniste, centrada nos dêiticos e nas marcas de subjetividade, não se aplicava ao discurso fílmico e que era necessário uma “reconversão”: “conceber um aparato enunciativo que não seja essencialmente dêitico (e portanto antropomórfico) que não seja pessoal (como os pronomes assim chamados) e que não imite demais este ou aquele dispositivo linguístico […]. A enunciação é o ato semiológico pelo qual certas partes de um texto nos falam desse texto como de um ato” (METZ, 1991, p. 20 apud Verón, 2013, p. 99). No estudo empreendido por Metz, em que ele descreve e aplica as operações enunciativas para análise do filme, o autor passa a compreender o texto como um processo, um funcionamento que pode ser chamado simplesmente “enunciação” (desantropomorfizada) (Verón, 2013, p. 100).
No entanto, apesar do esforço de Metz por se desvencilhar do subjetivismo de Benveniste – já que, no caso do cinema, segundo ele, não há contexto intersubjetivo, impossibilitando uma análise da enunciação fundada em marcas de subjetividade e reenvios situacionais – ele não vê outra opção além de fechar-se no texto. E o estudo da enunciação segue sendo um estudo textual.
Verón lembra, no entanto, que “a análise da enunciação deve ter por princípio de método a identificação, no discurso analisado, de operações que se está tratando de descrever e de formalizar”. Ele questiona o pesquisador francês sobre a lacuna que deixa ao não explicar como deve proceder o analista. Sua posição seria a mesma do espectador do filme? Sem dúvida não é, responde Verón, reconhecendo que Metz não reflete sobre essa problemática. E rebate: “Porque nos processos de mediatização em geral, neste caso o cinema, nem tudo repousa sobre as máquinas”. Talvez o todo da produção repousa sobre as máquinas, mas no reconhecimento há pessoas: o analista é uma delas” (VERÓN, 2013, p. 101).
A questão do emissor empírico
Christian Metz, em sua reflexão acerca das instâncias de produção e reconhecimento – por ele denominadas instâncias de encarnação –, recorda que as investigações sobre enunciação não utilizam métodos empíricos como enquetes e questionários, apoiando-se, por sua vez, em análises “internas” dos filmes. Por isso, necessitam representar constantemente uma “Figura de Espectador”, isto é, um leitor ideal (imaginário, implícito). Para ele, emissor e receptor, os dois pólos “reais”, são eles próprios “imaginários” e, no entanto, indispensáveis como “muletas mentais” para o analista. Indispensáveis e de um uso muito legítimo, desde que se saiba que esse “real” não é nada além do imaginário do analista (METZ, 1991, p. 27-28)
E segue evocando a ‘dissimetria entre os pólos’ da emissão e da recepção: “do lado da ‘emissão’ não há ninguém, não há nenhuma pessoa, há somente um texto; o enunciador […] não existe, ou melhor, é apenas uma personificação da enunciação. Na ‘recepção’, pelo contrário, há necessariamente uma pessoa (ou várias) em todo caso pelo menos um espectador, o analista (ou simplesmente quem tenha visto o filme) porque sem ele ninguém saberia nada do texto, nem que esse texto existe, com o qual o próprio pólo da recepção desapareceria” (METZ, 1991, p. 199-200).
Para Verón, tal afirmação leva a crer que há um duplo vazio teórico na obra de Christian Metz: o da posição do analista e a posição do consumidor dos filmes. E que o ‘real’ da produção e do consumo parece ter para Metz um caráter praticamente ‘aleatório” com relação à análise textual: sendo algumas vezes evocado como um “conhecimento” necessário acerca do enunciador e do enunciatário que possibilitaria apreender possíveis “intenções” do autor e reações do espectador. Afirmando que ele não pretendia considerar que “todas as configurações enunciativas estão desprovidas de toda influência sobre o comportamento observável dos espectatdores” e que para medir tal influência seria necessário “sair do texto” (METZ, 1991, p. 29-30 apud Verón, 2013, p. 102-103).
Tais afirmações em torno das instâncias de emissor e receptor levam Eliseo Verón a concluir que, mesmo em sua última obra, Metz continuava partidário ao “imanentismo radical da primeira semiologia”. E que o “modelo implícito” para pensar a interface entre a produção e o reconhecimento era um modelo de causa-efeito linear (‘influência’, ‘determinação’, ‘reações’ e ‘comportamentos’ do espectador). Metz admitia que as características do filme influenciam diretamente a recepção, mas que isso fazia parte de ‘outro mundo’ e que demandava um outro tipo de observação. Por isso que, para Verón, a aproximação de Metz à psicanálise possibilitou ao semiólogo francês instrumentos para falar do espectador sem necessidade de ir a esse ‘outro mundo’ dos estudos empíricos.
Crítica à análise imanente
Mas Metz, mesmo fiel à análise textual imanente, nunca realizou, segundo Verón, um estudo pormenorizado de um filme em particular. Por ser um cinéfilo e ter grande conhecimento sobre outros filmes, história do cinema e os distintos momentos econômicos, políticos e culturais da indústria cinematográfica, suas análises sempre, de algum modo, faziam referências a elementos ‘extratextuais’. Sendo assim, Eliseo Verón alerta:
“A questão fundamental é compreender que o princípio da ‘imanência no texto’, do caráter supostamente ‘interno’ de análise dos filmes (como caso particular de análise de qualquer discursividade social), é resultado de um mal-entendido: a ‘imanência no texto’, na verdade, nunca ninguém realmente praticou. Não se pode abordar um texto de maneira interessante sem mobilizar inúmeras percepções, informações, hipóteses e conceitos ‘extratextuais’, sem os quais nem mesmo se poderia justificar porque estar analisando esse texto ou outro. Salvo atitudes (explícitas ou não) de ordem da pura contemplação estética, o interessante nunca é o texto em si, mas as marcas da semiose que carrega, semiose que sempre, necessariamente, transcende o discurso que se está analisando em um momento dado [...]. A suposta ‘imanência no texto’ nunca foi outra coisa que a não explicitação dos múltiplos saberes ‘extratextuais’, conscientes uns, inconscientes outros, sobre as condições de produção dos textos, que orientam as decisões do analista, decisões sem as quais a própria análise não poderia, literalmente, acontecer” (VERÓN, 2013, p. 105-106, sublinhado do autor).
Por fim, Metz em seu esforço por construir uma teoria da enunciação impessoal, “não antropóide”, afirma que “a enunciação é o ato de enunciar” (1991, p. 187). Essa definição, ampla e aberta da enunciação mediática, desligada de operadores especializados de enunciação (como os dêiticos) conduz à hipótese de que os discursos são inseparáveis entre si. E, assim, fechando sua trajetória analítica, Verón retorna ao início de sua explanação e à sua hipótese sobre a ambivalência de Metz com relação ao binarismo saussuriano afirmando: “um ato enunciativo somente é analisável e interpretável a partir de suas características diferenciais com relação a outros discursos (reais ou possíveis) do mesmo tipo.
Portanto, não sendo possível para Christian Metz pensar a enunciação em seu aspecto subjetivo, ou seja, centrado nas figuras de um enunciador e de um enunciatário, porque o fazer do cinema repousaria “sobre as máquinas”, o semiólogo adapta seu pensamento e cria uma teoria da enunciação para análise do filme preocupada em descrever e interpretar os múltiplos recursos do modo de dizer do cinema. Para Verón, Metz poderia ter criado, se avançasse em seu raciocínio, as bases para uma semiótica contemporânea mais rica e mais sólida.
Referências:
METZ, Christian. L’énonciation impersonnelle ou le site du film. Paris, Klincksieck, 1991.
VERÓN, Eliseo. Mediatización y enunciación. In: La semiosis social, 2: ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires: Paidós, 2013. pp. 95-107