Ivanise Andrade

Resumo

O presente artigo tem como objetivo realizar uma revisão e uma discussão conceitual e metodológica acerca do conceito de acontecimento mediático, compreendendo-o como uma construção discursiva realizada pelos meios de comunicação, que passaram a ser uma das principais fontes de transmissão e formatação de acontecimentos na contemporaneidade. Parte-se de uma perspectiva construtivista, semiológica e discursiva de que qualquer ocorrência torna-se acontecimento a partir do momento em que é significado e nomeado, ou seja, quando sobre a ocorrência se produz sentido. Este trabalho é parte de pesquisa de doutorado em andamento no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), que possui, entre seus objetivos, analisar como os jornais O Globo (RJ), considerado um jornal de referência, e Extra (RJ), um jornal popular, constroem discursivamente os mesmos acontecimentos mediáticos sobre violência envolvendo crianças e adolescentes, aproveitando tais acontecimentos como metáforas da voz ou do posicionamento discursivo desses jornais.

Palavras-chave: Análise de discurso; Acontecimento; Acontecimento mediático; Estratégias de análise.

Introdução

Centro de um debate interdisciplinar entre filósofos, sociólogos, historiadores e comunicadores, o acontecimento tenta ser explicado desde a Antiguidade, evidenciando definições e características frequentemente a ele atribuídas, tais como singularidade, imprevisibilidade e descontinuidade (Morin, 1972; Nora, 1972). Em 1972, em um esforço por debater a noção de acontecimento, a Revista Communications, número 18, dirigida por Edgar Morin, retoma a reflexão, após longo período de silêncio da História e das Ciências Sociais sobre o tema.

Em seu artigo de abertura, Le retour de l’événement, Morin afirma que o acontecimento foi perseguido, pelas mais variadas áreas da ciência – ocupadas em ordenar leis, modelos, estruturas e sistemas – justamente no momento em foi relacionado à singularidade, à contingência, ao acidente, ao irredutível, ao vivido. A unicidade do acontecimento parecia contrária à necessidade de repetição e regularidade do objeto científico. Entretanto, conforme Edgar Morin (1972), o acontecimento toca e é a questão limite de todas as ciências, mesmo com sua singularidade, improbabilidade, descontinuidade, acidentalidade, etc. “O acontecimento está em todos os lugares […] é um tipo de delírio porque, então, tudo se pode tornar acontecimento […], o acontecimento está onipresente, difuso, sem limites […], sucedem-se como uma rapidez que apenas permite retomar o fôlego” (Mouillaud, 2012: 68).

Sendo assim, o que segue é um esforço de revisão e discussão conceitual e metodológica a fim de compreender a noção de acontecimento e como se processa sua construção discursiva pelos media (Mouillaud, 2012; Charaudeau, 2010). Segue-se por uma perspectiva construtivista sobre o campo de produção jornalística (Verón, 1981) e, mais especificamente, pela tese de que as ocorrências só podem ser conhecidas quando significadas – nomeadas –, ou seja, quando sobre elas se produz sentido (Charaudeau, 2010; Garcin-Marrou, 1996). Afinal, como explica Maurice Mouillaud (2012: 50): os media “impõem ao mundo não apenas uma interpretação hegemônica dos acontecimentos, mas a própria forma do acontecimento”.

O presente artigo é parte da pesquisa A construção discursiva da violência envolvendo crianças e adolescentes em jornais impressos brasileiros: um estudo de caso dos jornais O Globo e Extra de 2000 a 2014, que tem como um de seus objetivos: compreender como os jornais O Globo (RJ), considerado um jornal de referência, e Extra (RJ), um jornal popular, constroem discursivamente os mesmos acontecimentos mediáticos sobre violência envolvendo crianças e adolescentes, aproveitando tais acontecimentos como metáforas da voz ou do posicionamento discursivo desses jornais, considerando que ambos pertencem a um mesmo grupo de comunicação[2], sendo, portanto, oriundos de um mesmo emissor, mas com posicionamentos discursivos distintos.

Partindo-se do pressuposto de que a forma do discurso de informação da atualidade é por excelência o acontecimento (Mouillaud, 2012), o estudo é guiado pela intuição de que, quando se trata de um acontecimento mediático acerca da violência envolvendo crianças e adolescentes que gera grande comoção na sociedade, tanto O Globo quanto o Extra tendem a enfatizar emoções e sensações, utilizando estratégias discursivas que reforçam o sentido do sofrimento e, às vezes, aproximando-se de uma fronteira ou uma membrana em comum.

Para tanto, este artigo apresenta uma revisão bibliográfica de noções sobre acontecimento mediático[3] seguido da explicitação de operadores e estratégias de análise da construção discursiva do acontecimento.

Acontecimento mediático

Os meios de comunicação tratam de ocorrências do mundo real, conferindo-lhes o aspecto de acontecimento através de uma criação sócio-simbólica que se processa no interior de uma semiose[4] social, histórica, cultural e infinita (Verón, 2004). O acontecimento, por ser da ordem do presente e da experiência, constitui-se na e pela produção de sentido, no processo discursivo mesmo e a partir de estratégias enunciativas utilizadas pelo sujeito enunciador e compartilhadas pelos coenunciadores.

Trata-se, de acordo com Mouillaud (2012, p. 69), de um trabalho de coerência no espaço e no tempo em busca de estabelecer uma unidade à diversidade “caótica” de experiências, a princípio desconexas e carentes de significação. “Trata-se de constituir um todo cujas partes estejam coordenadas”. E essa construção de um todo de sentido pode ser descrita a partir da leitura das pistas que se desenham e dos caminhos que se abrem. “Uma rede de sentidos se institui: uma lógica e uma cronologia se instalam”.

O processo de construção do acontecimento opera também contenções de significação, uma vez que limita as possibilidades interpretativas e de apreensão da experiência ao criar quadros interpretativos, “interditando a hemorragia do sentido” (Mouillaud, 2012). Essa forma de compreender o acontecimento como parte da construção da experiência possibilita dar “um salto de qualidade conceitual que nos permite, mais adiante, perceber um regime discursivo como acontecimento” (Benneti, 2009: 6).

O acontecimento está, portanto, em constante mutação, construção, recriação e resignificação: é construído pelo (e no) discurso (Charaudeau, 2010), pelo mise en récit (Garcin-Marrou, 1996), em um processo de atribuição de sentidos realizado por operadores, entre eles os meios de comunicação. Mas como os meios de comunicação constroem acontecimentos mediáticos?

Os meios de comunicação trabalham com estratégias enunciativas para criar acontecimentos, escolhendo e selecionando ocorrências dentro de um “mundo a comentar” (Charaudeau, 2010). Assim, torna-se relevante, ao propor uma análise da construção discursiva do acontecimento mediático acerca da violência envolvendo crianças e adolescentes, compreender e descrever as operações e estratégias das quais os meios de comunicação se utilizam para construir acontecimentos. No caso do jornal impresso, a apreensão dessa construção se processa pela análise das matérias significantes (Verón, 2004) que o constitui, ou seja, pela análise das páginas e sua diagramação, fotografias, títulos e textos, uma vez que “os acontecimentos explodem na superfície da mídia sobre a qual se inscrevem como sobre uma membrana sensível. Mas põem em ressonância os sentidos que nela são inscritos”, e, assim, “pistas se desenham, caminhos se abrem, uma rede de sentidos se institui: uma lógica e uma cronologia se instalam” (Mouillaud, 2012: 68-69).

Sendo assim, a construção de um acontecimento mediático é entendida como um trabalho de criação sócio-simbólica, cujos meios de comunicação são operadores entre um conjunto de operadores, fazendo com que a informação não seja um simples transporte de fato, mas um ciclo ininterrupto de transformações. Nesta base de transformações sócio-simbólicas, se torna útil a noção de construção discursiva, saindo da perspectiva conteudística, marcadamente de teor sociológico ou linguístico, para uma perspectiva da moldura em si, pela qual a informação conserva sua identidade ao longo dos vários deslocamentos. Assim:

“A moldura opera ao mesmo tempo um corte e uma focalização: um corte porque separa um campo e aquilo que o envolve; uma focalização porque, interditando a hemorragia do sentido para além da moldura, intensifica as relações entre os objetos e os indivíduos que estão compreendidos dentro do campo e os reverbera para um centro” (Mouillaud, 2012: 79).

A construção do acontecimento mediático opera, dessa forma, a partir das apreensões da experiência, em uma “dinâmica inesgotável” (Mouillaud, 2012), pelos produtores de conteúdo dos meios de comunicação (os enunciadores), no momento da escolha, seleção, hierarquização e construção dos acontecimentos. As chamadas regras canônicas do fazer mediático são, segundo Mouillaud (2012), a expressão em superfície de uma leitura da experiência que é codificada e arbitrária. Isto é, ao apreender a experiência, os produtores de informação o fazem a partir de um modelo padrão – fato padrão[5] –, que condiciona a moldura dentro da qual o acontecimento será delimitado a fim de conter a “hemorragia de sentidos”.

A questão, para o autor, é que esse modelo é linear, interpreta toda e qualquer experiência como uma série de transformações encadeadas umas às outras. Essa linearidade é o modelo dominante da informação e pode ser entendida como um esquema dentro do qual a experiência é apreendida para ser comunicada: “serve de suporte ao paradigma do ‘fato’, cuja forma canônica é a transformação de um ‘estado’”, em que os verbos “fazer”, “ser”, “estar”, por exemplo, servem de matriz para todos os acontecimentos (Mouillaud, 2012: 78-79). Não se pode, porém, apreender um acontecimento de uma só olhada, ou como um todo, por isso, sua apreensão exige que ele seja fragmentado em cenas parciais, em fragmentos da experiência e a página do jornal oferece uma figura aproximada desse olhar fragmentado da experiência.

Segundo Mouillaud, nela se pode verificar que o acontecimento (que aparece como título na diagramação) não forma um texto único: é fragmentado em facetas múltiplas, que correspondem, cada uma à captura de uma de suas dimensões. “O acontecimento eclode em uma pluralidade de acontecimentos parciais que se projetam em estrela. A disposição sobre a área da página é o local de uma retórica do discurso. Uma escrita do espaço tomou o lugar da retórica do discurso, que era uma retórica da fala e do tempo” (Mouillaud, 2012: 80-81).

Dadas tais características, a questão que se coloca é compreender o que conduz e como os meios de comunicação escolhem um acontecimento, entre tantos que se produzem no mundo, para ser um acontecimento mediático. Para Charaudeau (2010), essa seleção ocorre em função do tempo, do espaço e da hierarquia que convertem o acontecimento em notícia.

Outra reflexão a ser feita, para além de compreender como se processam as escolhas do que será elaborado como acontecimento mediático é entender como ele é construído, quais as estratégias enunciativas utilizadas pelos jornais impressos para “fazer-saber” e “fazer-crer” (Mouillaud, 2012), buscando categorias que permitam, de maneira mais abrangente, compreender quais os recursos utilizados pelos media para descrever, contar (narrar) e explicar e/ou persuadir (Charaudeau, 2010). Para Garin-Marrou (1996), o acontecimento mediático é construído em dois movimentos: pelo mise en récit, isto é, pela própria narrativa que é criada pelo meio de comunicação, e pela atribuição de valor – sentidos, significados – pelo sujeito enunciador em sua relação com o coenunciador, em outras palavras, pelos sentidos que se constituem no processo enunciativo que envolve as instâncias de produção, recepção e circulação do acontecimento.

Sendo assim, ao se propor compreender a construção discursiva do acontecimento mediático de casos de violência envolvendo crianças e adolescentes por jornais impressos, é preciso considerar que o acontecimento toma a forma da informação padrão e se processa através de mecanismos de produção do discurso jornalístico, que envolvem fatores internos e externos à enunciação, mas que são definidores do plano de fundo, do contexto, e da própria narrativa.

Estratégias de análise

O acontecimento mediático é fruto de uma construção e, para dissecá-lo, a fim de encontrar pistas ou marcas que conduzam ao posicionamento discursivo[6] de uma publicação impressa é preciso traçar estratégias de análise que levem em conta a materialidade discursiva do acontecimento, ou seja, o acontecimento concretizado e tornado visível pelo jornal, enquanto dispositivo que articula diversas matérias significantes (Verón, 2004)[7], para posicionar-se frente aos leitores da publicação; e as estratégias enunciativas utilizadas pelos jornais impressos para “fazer-saber” – informar – e “fazer-crer” – persuadir – (Mouillaud, 2012), em um movimento de análise que alia descrição e evidenciação de regularidades, convergências e divergências, possibilitando (re)traçar o caminho operado pelo enunciador.

A reflexão sobre estratégias e procedimentos de análise da construção do acontecimento mediático inspira-se em Charaudeau (2010), Mouillaud (2012), Verón (2004) e Garcin-Marrou (1996) e parte da conceituação de jornal como um dispositivo que articula diferentes matérias significantes para construir discursivamente acontecimentos mediáticos a partir do padrão canônico do fato. Para Maurice Mouillaud (2012), os dispositivos são os lugares materiais ou imateriais que possuem uma forma particular de estruturação no tempo e no espaço, nos quais se inscrevem (necessariamente) os textos, estes entendidos como qualquer forma de linguagem e conjunto significante, ou seja, como um “lugar de investimento de sentido, quaisquer que sejam as matérias significantes, isto é, independente da forma que o discurso assuma (um texto escrito, uma imagem, um livro, um programa de televisão, etc)” (Verón, 2004: 60). Assim, o jornal impresso se inscreve no dispositivo geral da informação e contém, ele próprio, dispositivos que lhe são subordinados, como o sistema de títulos, sendo, por esse motivo, determinante da forma do acontecimento que é construído.

E o trabalho de apreensão e desconstrução do acontecimento mediático, pelo analista, passa pela compreensão das estratégias enunciativas a partir das quais o acontecimento é construído, isto é, se processa na descrição e evidenciação do “modo de dizer” ou o “modo da enunciação” da publicação.

Todo discurso possui uma “organização significante do espaço discursivo” (Verón, 2004) com seus desvios interdiscursivos que evidenciam as diferenças entre os discursos, e, consequentemente, entre os meios de comunicação. Assim, um texto não pode ser analisado “em si mesmo”, mas na relação das matérias significantes que fazem parte da constituição de sentidos (Verón, 2004: 61-62). “Só a busca dos desvios interdiscursivos pode orientar-nos. Trata-se de descrever, num conjunto discursivo, todas as operações que definem uma diferença sistemática e regular de um outro conjunto discursivo, ambos submetidos, em hipótese, a condições produtivas diferentes” (Verón, 2004: 68).

O acontecimento mediático é construído, assim, por meio de operações e estratégias enunciativas que se processam nos jornais impressos pela seleção e moldura de acontecimentos que serão significados e nomeados, mantendo uma identidade que o sustenta enquanto acontecimento, embora evidencie elementos novos a cada nova narrativa.

Essa construção materializa-se no dispositivo jornal impresso através, entre outros aspectos, da diagramação, onde a produção do sentido começa; nas fotografias, que “tem o privilégio de fixar o instante e de dar uma prova (e um suplemento) de verdade à informação” e nos enunciados que dão identidade ao jornal (ou o seu posicionamento discursivo), tais como o nome do jornal, o título e os títulos, o corpo do texto e as estratégias de citações (Mouillaud, 2012: 44-45).

A título de procedimento analítico, Mouillaud (2012) explicita alguns caminhos para o estudo do acontecimento mediático em jornais impressos, como a análise das estratégias enunciativas presentes em operadores como: o nome do jornal, o título, o sistema de citação; adentrando, na sequência, no que chama de “corpo do jornal”, ou seja, nas diversas matérias significantes que o compõe: a diagramação, os textos (matérias, reportagens, artigos, editoriais), as imagens, os infográficos, as legendas, avaliando as duas grandes funções enunciadoras dos impressos, quais sejam, fazer-saber (informar) e fazer-crer (convencer):

“A primeira delas é a de “fazer saber”. A finalidade dominante do discurso do jornal é a de produzir um efeito real do qual se estudaram, sucessivamente, os procedimentos de autenticação e as estratégias de descrição […]. A segunda estratégia está preferencialmente a serviço da verdade, e não da realidade. O jornalista mantém um pacto implícito com o leitor, cuja finalidade é o ‘fazer crer’; […], por meio do discurso do outro, fundamentando-se na credibilidade do enunciador e na credulidade do leitor” (Mouillaud, 2012: 45).

Dessa forma, para compreender a construção discursiva do acontecimento mediático pelos jornais impressos, em especial quando conferem visibilidade a casos de violência envolvendo crianças e adolescentes, uma démarche pode ser elaborada abarcando três aspectos analíticos: a moldura do acontecimento; o posicionamento discursivo e o mise en récit (a narrativa).

A moldura do acontecimento refere-se tanto à seleção, que, como exposto, é externa e interna ao espaço discursivo da publicação e promove a contenção de sentidos da ocorrência, quanto à cena do acontecimento, que se constitui de “fragmentos parciais da experiência” (Mouillaud, 2012) que permite a apreensão do mundo a comentar. A análise da cena parte do que é apreendido do texto, do posicionamento da publicação e do que é posto em evidência na construção do acontecimento possibilitando a descrição de aspectos temporais, espaciais e hierárquicos que podem responder a questão de como e por que fragmentos ou partes de uma ocorrência figuram nas páginas de um jornal e não em outro.

Outro aspecto a ser analisado é o posicionamento discursivo da publicação que evidencia decisões e estratégias enunciativas de construção de acontecimentos mediáticos. Para Mouillaud (2012: 44), o “nome do jornal” constitui-se como um operador simbólico de análise na medida em que é entendido como “um olho aberto sobre o mundo, que é intercambiável com o olho do leitor ao qual se dá o poder de ver”. O nome do jornal, ao constituir-se social e historicamente, tanto identifica o enunciador quanto oferece pistas do posicionamento assumido e configurado ao longo do tempo e do espaço. O posicionamento é construído e reconstruído continuamente, e pode ser perene ou rompido, dependendo das estratégias enunciativas utilizadas e o cumprimento, ou não, das expectativas dos enunciadores e coenunciadores (destinatários ou leitores)[8] da mensagem, levando-se em conta a existência de um reconhecimento mútuo dos participantes do processo de comunicação.

O terceiro aspecto a ser analisado compreende o mise en récit do acontecimento, ou seja, a narrativa ou o relato do acontecimento que se desenha, no caso do jornal impresso, na articulação entre as diversas matérias significantes.

Analisando a cobertura do Libération sobre o atentado de 1996, na estação de metrô Port-Royal, em Paris, Mouillaud afirma que “o leitor do primeiro dia já é o beneficiário de um sentido que informa, quer dizer, que dá forma ‘àquilo que ocorreu’. O sentido se constrói dia após dia nos números do Libération que se seguem; o jornal produz esquemas que substituem o caos da explosão por uma topografia nítida e distinta” (Mouillaud, 2012: 68-69). O que conduz à reflexão de que o acontecimento mediático vai sendo construído dia após dia com narrativas que apresentam novas informações, personagens, comentários, finamente articuladas em caminhos e hierarquias argumentativas, bem como pela escolha de verbos e dêiticos, de fontes e citações (vozes).

Por fim, este trabalho move-se por uma perspectiva similar à proposta por Mouillaud (2012: 98), para quem o acontecimento é um saber e um não-saber: “Pode-se perguntar se, por trás de todos os acontecimentos da mídia, não haveria sempre um aval da narrativa, um ‘a saber’ ou um ‘desconhecido’, se não falta sempre à informação ‘um tipo de carência constitutiva’ que ela ‘tende em vão suprir’”. A exposição do acontecimento na superfície da mídia, sua emergência nas páginas dos jornais, pressupõe um saber e um não-saber na medida em que sua construção expõe e acoberta fragmentos do acontecimento, injetando mais-valia à informação, isto é, valorizando-a ao longo da narrativa.

Considerações finais

Sociologicamente, acontecimentos são ocorrências que acometem lugares e pessoas, gerando mudança e transformação. E são esses sujeitos que interpretam e dão vida aos acontecimentos, a partir da sua experiência, construindo novos sentidos e significados. Discursivamente, tais sujeitos são entendidos como enunciadores: instâncias discursivas que, tendo ou não vivenciado a ocorrência, constroem narrativas sobre ela, nomeando-as e conferindo significação. Assim, o jornal impresso, enquanto dispositivo que precede e rege a enunciação e a articulação de matérias significantes expostas em suas páginas, são espaços de evidenciação de acontecimentos construídos a partir de modelos, padrões e regularidades do discurso dos meios de comunicação.

Dito isso, é importante pontuar que o presente trabalho concentra-se não naquilo que as pessoas – ou os leitores como sujeitos sociológicos reais – interpretam, entendem ou significam do que está publicado nos jornais, mas a partir do que, discursivamente, emerge nas páginas das publicações que serão analisadas, buscando compreender como o jornal impresso constrói acontecimentos acerca da violência envolvendo crianças e adolescentes, a partir de como se posiciona discursivamente frente ao seu leitor presumido (coenunciador) e como formata os acontecimentos dentro de quadros interpretativos constituídos pelo enunciador.

Acontecimento mediático não é, portanto, somente uma reunião de acontecimentos estrategicamente articulados pelos produtores dos discursos dos meios de comunicação. Trata-se de uma construção, de uma criação sócio-simbólica inserida em uma semiose social, histórica e infinita que faz com que experiências tornem-se acontecimento por meio da significação.

Referências bibliográficas

BENETTI, Marcia (2009). O jornalismo como acontecimento. Anais do VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. USP.

CHARAUDEAU, Patrick (2010). Discurso das Mídias. Trad. Angela S. M. Corrêa. 2 ed. – São Paulo: Contexto.

FERREIRA, Giovandro Marcus (2007). Análise da imagem na imprensa: um percurso em busca da discursividade na fotografia. In: MATTOS, Sergio. Comunicação plural. Salvador: UFBA. p. 75-93.

GARCIN-MARROU, Isabelle (1996). L’événement dans l’information sur l’Irlande do Nord. Reseaux: communication technologie societé (CNET), n. 76, p. 49-60.

MORIN, Edgar (1972). Le retour de l’événement. Communications, Paris, Seuil, n. 18, p. 6-20.

MOUILLAUD, Maurice (2012). A crítica do acontecimento ou o fato em questão. In: MOUILLAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O Jornal: da forma ao sentido. 3. ed. Brasília: UnB. p. 67-100.

MOUILLAUD, Maurice (2012). A informação ou a parte da sombra. In: MOUILLAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O Jornal: da forma ao sentido. 3. ed. Brasília: UnB. p. 55-65.

MOUILLAUD, Maurice (2012). Da forma ao sentido. In: MOUILLAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O Jornal: da forma ao sentido. 3. ed. Brasília: UnB. p. 47-53.

MOUILLAUD, Maurice (2012) O título e os títulos. In: MOUILLAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O Jornal: da forma ao sentido. 3.  ed. Brasília: UnB. p. 115-132.

NORA, Pierre (1972). L’événemente monstre. Communications, Paris, Seuil, n. 18, p. 162-172.

VERÓN, Eliseo (1981). Construire l´événement: les médias et l´accident de three mile island. Paris: Les editions de minuit.

VERÓN, Eliseo (2004). Fragmentos de um tecido. São Leopoldo: UNISINOS.

NOTAS:

[1] Artigo publicado no Livro de Atas do II Congresso Mundial de Comunicação Ibero-americana. Braga (PT): CECS-Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho), 2014. Disponível em: http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/article/view/1984/1906

[2] Cada um dos jornais apresenta características próprias, embora pertencentes a um mesmo grupo de comunicação, sendo O Globo considerado de referência e o Extra um jornal popular, mas que se inserem conjuntamente em um processo de convergência que vem ganhando força no Brasil desde a década de 1990, em que grupos de comunicação com um histórico de circulação de jornais de referência, passam a criar jornais com características mais populares para atender outro tipo de leitor, constituindo-se, assim, dois sujeitos enunciadores ligados a um emissor comum.

[3] Defendemos, neste trabalho, o uso do conceito de acontecimento mediático e não acontecimento jornalístico, embora nossa análise se concentre no estudo de jornais impressos, por entendermos que na sociedade contemporânea grandes acontecimentos não se restringem ao campo jornalístico, ultrapassando fronteiras mediáticas, agenciando sentidos nos mais diversos medias (cinema, teatro, música, revistas, telejornais, programas televisivos de entretenimento, debate, talk shows, etc).

[4] Peirce dá o nome de Semiose aos processos significativos em que se localizam o que ele chamou de ação do signo e que dá base para o entendimento de como, de um modo geral, o pensamento ocorre por meio de signos. É, por fim, o processo contínuo que busca aproximar a representação do seu objeto.

[5] Para Mouillaud (2012, p. 43), se acontecimentos são o objeto de uma construção e que existem tanto acontecimentos quanto enunciadores, o acontecimento é um “fato-padrão”, sendo que o padrão nasceu da “permuta generalizada de experiências quando se teceram cadeias mundiais de comunicação”. Com tal afirmativa, o autor procura relativizar a ideia de que o acontecimento seria um fato que pertenceria inteiramente à experiência, já que, ao ser construído discursivamente, ganha contornos dos mapas de sentidos constituídos, deixando de ser, exclusivamente, fruto de uma experiência única.

[6] O discurso estabelece-se sobre a relação entre enunciador e coenunciador (entre o jornal e o leitor, no caso da imprensa escrita) a partir do posicionamento discursivo adotado pela publicação, considerando também uma situação de concorrência (ou convergência) entre veículos de comunicação.

[7] Quaisquer elementos que, articulados, constituem um conjunto significante de sentidos. No caso do jornal impresso, podem ser listadas como matérias significantes capas, páginas internas, textos, títulos, fotografias, infográficos.

[8] O jornal configura para si um leitor presumido, para quem a publicação irá direcionar suas decisões estratégicas em termos de enunciação a fim de estabelecer um relacionamento cúmplice e fiel.