Ivanise Andrade

Resumo

Este artigo busca compreender qual o posicionamento discursivo estabelecido pelos jornais Massa! e o Correio* em relação a seus leitores, por meio da análise das estratégias discursivas e enunciativas adotadas e expostas em suas capas. A análise concentrou-se em verificar as formas de utilização de imagens, títulos, temas, cores, bem como a organização das matérias significantes na superfície discursiva da primeira página destas publicações. Parte-se do pressuposto de que toda relação discursiva se estabelece em relações entre os interlocutores (o jornal e seus leitores), a partir de um posicionamento discursivo configurado pelo enunciador e aceito pelo co-enunciador, o destinatário da mensagem. Foram analisadas capas dos jornais Massa! e Correio* de edições veiculadas entre os meses de agosto de 2011 e janeiro de 2012.

Palavras-chave: Jornalismo impresso; Jornal Popular; Posicionamento Discursivo.

Introdução

O jornal popular[1] é uma vitrine de fait-divers (MOUILLAUD, 2002) e sua primeira página, então, pode ser considerada o mostruário principal dessa vitrine: onde estão expostos os elementos que a publicação (o enunciador) considera mais importantes para sua identificação e posicionamento em um espaço de concorrência por leitores. Os fait-divers, conforme Barthes (1970), são textos que não se propõem a uma contextualização mais ampla, enfocando mais a causalidade, o efeito, o acaso e a coincidência, sendo uma “informação total, ou mais exatamente, imanente” que “contém em si todo seu saber: não é preciso conhecer nada do mundo para consumir um fait-divers; ele não remete formalmente a nada além dele próprio”, e seu conteúdo, por isso mesmo, não é “estranho ao mundo” (BARTHES, 1970, p. 57-58).

Ao se compreender o conceito de fait-divers, é possível afirmar, de saída, que os jornais populares, nos moldes dos que vêm se firmando nos últimos 20 anos: publicações compactas, com preços baixos, planejamento gráfico sedutor (com uso recorrente de elementos como cores, tipologia e fotografias chamativos), linguagem acessível e anúncios de serviços e produtos voltados ao público de baixa renda, em um contexto em que os meios de comunicação cada vez mais aliam informação com entretenimento, constituem-se, para além de vitrines, repositórios de notícias do cotidiano, em especial as que dão visibilidade a casos de violência, uma temática que comove, choca e revolta os destinatários do conteúdo da publicação, tornando-se um atrativo a mais e uma forma do periódico posicionar-se discursivamente junto a seu público.

Os jornais populares, em expansão no Brasil, crescem não somente em tiragem, mas em novos títulos. Segundo auditoria realizada pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC), houve um crescimento médio de 3,5% de circulação de jornais no Brasil em 2011, impulsionado em maior escala pelo crescimento nas vendas de publicações com preço de capa até 99 centavos, que avançou 10,3%[2].

Na Bahia, os jornais Massa! e Correio* representam essa transformação no mercado editorial e podem ser considerados populares. O Correio da Bahia foi criado em 1979 e passou por uma série de mudanças até chegar ao formato do atual Correio*. A última delas, lançada em 27 de agosto de 2008, foi a reformulação do projeto gráfico e a mudança de formato, menor e de mais fácil manuseio. Em 2010, o jornal Correio* implanta uma nova política de preços, baixando o valor de venda para R$ 0,50 durante a semana e R$ 1,00 aos domingos, a fim de ampliar o seu público, voltando-se para os segmentos C e D. A mudança levou o Correio* a alcançar a liderança de vendas no estado. Também nessa época, em outubro de 2010, chega às bancas o Massa!, como o novo jornal do grupo A Tarde, direcionado principalmente aos consumidores das classes C e D, com o mesmo preço do concorrente, R$ 0,50.

Em linhas gerais, tanto Massa! quanto Correio* voltam-se aos temas relacionados ao cotidiano dos seu público, com matérias sobre saúde, comportamento, mercado de trabalho, além de conteúdo de entretenimento como esporte e a vida das celebridades. Casos policiais, histórias curiosas e feitos extraordinários são, porém, os carros-chefes e têm espaço garantido nesses periódicos, com mais ou menos força, dependendo do posicionamento discursivo e institucional adotado pela publicação, como demonstra a análise que segue.

De sua parte, o Jornalismo, enquanto campo profissional que visa a informar e seduzir, reforçando crenças e sentidos, debruça-se, muitas vezes, segundo Correia (2009), sobre o que é desviante, equívoco e imprevisível. “A prática jornalística é particularmente sensível aos acontecimentos mais calamitosos que se mostram mais difíceis de classificar ou que contrariam, de forma mais clamorosa, as expectativas sociais” (ERICSON, BARANEK e CHAN, 1991, p. 4 apud CORREIA, 2009, p. 76). O Jornalismo também contribui para a transformação da dinâmica social em rotina, estabilizando-a em acontecimentos-tipo, comportamentos previsíveis e conflitos controlados. A realidade, assim, surge como o produto de um consenso sustentado pelo jogo das interações e das negociações entre participantes no processo da sua representação social (MOUILLAUD, 2002, p. 54). Entre os jornais populares, essa prática de transformar o acontecimento imprevisível e desviante em rotina, estabilizando e até naturalizando os assuntos tratados, é recorrente.

Assim, o objetivo do presente trabalho foi compreender qual o posicionamento discursivo estabelecido pelos jornais Massa! e o Correio* em relação a seus leitores, por meio da análise das estratégias discursivas e enunciativas adotadas e expostas em suas capas. A análise concentrou-se em verificar as formas de utilização de imagens, títulos, verbos, temas, bem como a organização das matérias significantes na superfície discursiva das primeiras páginas destas publicações. Este estudo parte do entendimento de que toda relação de discurso repousa sobre relações entre os interlocutores, como o jornal e seus leitores. Há, dessa forma, um posicionamento que é construído e reconstruído continuamente, que pode ser perene ou rompido, dependendo das estratégias enunciativas utilizadas e o cumprimento, ou não, das expectativas dos enunciadores e co-enunciadores (destinatários ou leitores) da mensagem.

O corpus da análise foi formado a partir da metodologia da “semana construída” proposta por Kayser (1953), na qual uma semana completa de cada um dos meses escolhidos para o trabalho foi selecionada. O período de formação do corpus foi de agosto de 2011 a janeiro de 2012, distribuído nas seguintes semanas: 22 a 26 de Agosto; 05 a 09 de Setembro; 10 a 14 de Outubro; 14 a 18 de Novembro; 26 a 30 de Dezembro e 02 a 06 de Janeiro. Todas as capas selecionadas no período foram analisadas.

Procedimentos metodológicos

O discurso é movimento dos sentidos, um deslizar e um exercício constante de resignificação do mundo através da palavra. Nesses termos, o jornal impresso, enquanto meio de comunicação e de materialização de discursos, constitui-se de enunciados que estão em constante diálogo. Outra característica de todo discurso é que ele repousa sobre a relação entre enunciador e co-enunciador (entre o jornal e o leitor, no caso da imprensa escrita) a partir do posicionamento discursivo adotado pela publicação, considerando também uma situação de concorrência entre veículos de comunicação. “Em um universo de discurso em que, do ponto de vista do conteúdo, a oferta é quase a mesma, o único meio de cada título construir a sua “personalidade” é através de uma estratégia enunciativa própria, ou seja, construindo um certo vínculo com seus leitores” (VÉRON, 2004, p. 249, grifos do autor).

Dessa forma, uma análise de discursos da imprensa que objetiva compreender esse posicionamento leva em conta que existe um reconhecimento mútuo dos participantes no ato de comunicação, bem como regras que são seguidas, como normas gramaticais e do fazer jornalístico. Além disso, competência linguística e enciclopédica (memória), pertencimento e reconhecimento do código utilizado e formas de organização textual, ou seja, de organização dos elementos que compõem a página do jornal, completam a lista de pré-requisitos necessários para se configurar a relação entre emissor e receptor[3].

Esse reconhecimento começa na capa, onde é possível visualizar, de forma mais evidente, as estratégias enunciativas adotadas pela publicação para posicionar-se discursivamente em sua relação com o leitor, como propõe o título deste trabalho: é a vitrine da vitrine. A primeira página é uma superfície discursiva, uma “rede de relações assumidas por marcas” e traços, onde se articulam e se relacionam matérias significantes (VERÓN, 2004, p. 159).

Ao realizar um trabalho de análise de capas de revistas semanais informativas francesas, Eliseo Verón (2004, p. 163) conclui que uma capa contém um certo número de elementos, como o nome do veículo de comunicação, títulos, foto (uma única ou mais de uma) e que, somente pela co-presença, na capa, esses elementos se relacionam uns com os outros e também com elementos discursivos que não estão na capa, como o restante da publicação. “Em análise de discursos, quando se trata de composições texto/imagem, a imagem nunca pode ser analisada em si mesma; ela não é separável dos elementos linguísticos que a acompanham, que a comentam” (VERÓN, 2004, p. 169).

A partir dessas considerações, e seguindo proposta metodológica descrita por Eliseo Verón (2004, p. 163), é possível elencar uma variedade de relações possíveis de serem identificadas e descritas e que levam a um entendimento do posicionamento discursivo adotado pela publicação. Entre elas: quais os conteúdos semânticos das imagens? Qual a relação das imagens com os títulos? Qual a tipografia e cor do título? Quais as relações entre títulos principais e suas variantes (ante-títulos, subtítulos)? Qual a localização na página de cada uma dessas unidades discursivas? Seguem uma hierarquia? Como se constrói a narrativa a partir do arranjo dessas unidades?

Na capa de uma publicação, segundo Verón (2004, p. 220), o enunciador “pode fazer muitas coisas” ou “muito poucas”, podendo interpelar o destinatário ou simplesmente mantê-lo como mero espectador à distância. As modalidades de enunciação na capa de um jornal são determinantes para a construção do posicionamento discursivo da publicação na medida em que podem mostrar, de forma mais ou menos coerente, mais ou menos cúmplice, os acordos firmados tacitamente entre enunciador e co-enunciador.

Metodologicamente, a análise desenha-se em três etapas, não necessariamente sequenciais, mas inter-relacionadas, assumidas por Verón (2004) como três exigências para reconhecer o posicionamento discursivo dos meios de comunicação: a regularidade das propriedades descritas; as diferenças entre suportes; a sistematização das propriedades exibidas por cada suporte. Esse conjunto de etapas inclui, neste estudo, a análise da relação entre as matérias significantes (títulos, verbos, temas, imagens, cores, etc.) das capas dos jornais baianos Massa! e Correio*, sistematizando marcas e traços que, comparativamente, evidenciam regularidades que levam a uma conclusão acerca do posicionamento discursivo assumido pela publicação.

 Massa! na primeira página

Na capa do jornal Massa!, a proposta de diálogo com o leitor passa pelos antetítulos, títulos, subtítulos, fotos, cores, criando efeito de sentido de proximidade, de conversa, de falar diretamente e unicamente com o destinatário da mensagem. De forma estratégica, a primeira página do Massa! mostra o fato, seduz pelo inusitado, pela crueldade ou pela ironia e depois convoca o leitor a se aliar discursivamente (concordando com o jornal) ou ativamente (denunciando, colaborando com alguma causa ou doando algo). A enunciação conduz ao efeito de sentido do “jornal que faz parte da sua vida” porque informa e mostra aquilo que ninguém mais mostra.

As capas do Massa! se destacam pela foto “olho no olho” em que a personagem retratada dialoga com o leitor, expondo sua situação, sua versão do fato, questionando, se explicando ou se justificando. São fotos posadas, geralmente de acusados ou vítimas de crimes, principal temática do jornal, ao lado de manchetes sobre esportes, histórias de superação e vida dos famosos.

Os títulos são construídos com o uso da linguagem oral, estabelecidos como uma conversa de dia a dia entre o enunciador, o jornal, e seu co-enunciador, o leitor. Neles são encontrados questionamentos, exclamações, afirmativas e negações que direcionam a reflexão do leitor e sua consequente tomada de posição. A intenção é fazer com que o leitor mantenha-se fiel à publicação, reforçando e concordando com o posicionamento proposto pelo suporte. Além da orientação para a reflexão, a capa também diverte, indigna e convoca o leitor à ação, seja discursivamente, seja ativamente.

Os títulos são redigidos com verbos no presente ou até mesmo no imperativo, para cumprir o efeito de sentido do “aqui e agora”, como se o fato estivesse ocorrendo naquele momento. São escritos na ordem direta, para facilitar a leitura e a apreensão do fato, utilizando-se de termos do dia a dia, gírias, ironias, apelidos e metáforas. Visualmente, ocupam grande espaço na página, são redigidos em caixa alta e com fundo preto ou vermelho, por dois motivos: para facilitar a leitura e aproveitar bem o espaço da página. Os exemplos que seguem demonstram a linha editorial dos títulos das manchetes, a variedade temática da publicação e as estratégias (como trocadilhos e metáforas) que visam a apelar ao sentimental ou mesmo fazer uma crítica à violência:

Covardões agora se arrependem (21/08/11)
Bahia dá cartão vermelho (23/08/11)
Bebê salvo por milagre (24/08/11)
Olha ele aí, na cadeia (25/08/11)
King Kong deu a louca no Natal (26/12/11)
Minha casa, minha morte (04/01/12)
Ex-vereador se desespera e pula de avião (16/11/11)
Civil bandido e PM exterminador (06/09/11)

No Massa! muito já é dito pela composição “antetítulo – título – subtítulo”, sendo que cada um desses elementos provoca um efeito de sentido diferente por conta da estratégia discursiva utilizada. Ou seja, os títulos conferem o impacto da ação e têm caráter informativo, onde a notícia (o acontecimento) é apresentada ao leitor; os antetítulos, também chamados de retrancas, contextualizam a ação anunciada e têm teor opinativo, trata-se do lugar discursivo em que o enunciador aparece, onde ele se mostra e se posiciona; e os subtítulos apresentam-se como descritivos, são narrativas que relatam, muitas vezes detalhadamente, ações e lugares. A composição, apoiada pelas imagens, está em constante diálogo com o leitor, oferecendo um circuito interpretativo pelo movimento de um posicionamento pedagógico.

Os antetítulos são utilizados pelo enunciador, como afirmado, como um espaço de julgamento, de avaliação, de aproximação com o leitor, em que o enunciador expõe sua opinião sobre o fato, usando metáforas, termos coloquiais e dúbios, ironias, gírias e frases prontas de efeito, com palavras carregadas de sentido, e faz isso conferindo apelidos aos envolvidos no caso ou até exaltando algum personagem, herói ou vítima. No antetítulo, além de expor sua posição, sua opinião, o jornal coloca-se como o sujeito do julgamento, aquele que diz se os envolvidos são culpados ou inocentes. Também se utiliza de interrogativas que são respondidas no título, como no exemplo que segue:

Jornal Massa!, 25/08/2011
Antetítulo: CADÊ COCO?
Título: OLHA ELE AÍ, NA CADEIA!
Subtítulo: Acabou a onda do bandido que ficou famoso na Internet e virou tema de pagode. O traficante do Calabar e homicida Edeílson Miranda, o Coco, foi preso numa blitz.

O subtítulo apresenta-se como uma narrativa detalhada, sequencial, como que para “pintar o quadro” completo da notícia, no intuito de levar o leitor a comprar o jornal, aguçando a curiosidade para o restante da história. A manchete “Caseiro herói bota ladrão dorminhoco em cana” (13/11/11), por exemplo, vem antecedida pelo antetítulo “O cara é corajoso” e seguida pelo subtítulo descritivo: “Malandro deitou e rolou na casa do Secretário João Leão: tomou banho, comeu feijoada, fumou um cigarro do capeta e deu uma cochilada. Foi pego no flagra por Galdino Santos, que trancou o mané no quarto e chamou a polícia.”

Os elementos que compõem esta manchete, que se completa com a foto do caseiro em pose de herói, com os braços cruzados e olhando diretamente para o leitor, como que dizendo “missão cumprida”, também demonstram o posicionamento discursivo adotado pela publicação: temática que cria e reforça o mito do herói que protege a sociedade contra os bandidos e que venceu mais uma batalha, seguida de uma organização das matérias significantes (tipo e enquadramento da fotografia, cores, título com fonte em caixa alta, palavras, gírias e ironias) que sugere o esforço do enunciador não só em informar, mas em criar a sensação de que, apesar de se noticiar um caso de polícia, o bem ainda pode vencer o mal.

O Massa! se posiciona como a publicação “amiga” do leitor, com base em uma cumplicidade discursiva comungada por ambos. Cumplicidade esta que envolve o tipo de código utilizado: linguagem simples, direta, conversada, carregada de gírias, frases de efeito, julgamentos, questionamentos. Os temas seguem essa linha da “conversa entre amigos”: a morte ou a prisão do traficante mais conhecido do bairro, o resultado do jogo do final de semana, as demissões e contratações dos times, os homicídios da vizinhança, as brigas entre os casais, o preço do botijão de gás, a falta de aula no colégio, a dica para o concurso, vagas no mercado de trabalho, a vida dos famosos. Tudo construído cuidadosamente para atender a expectativa do leitor presumido construído pelo enunciador para nortear as estratégias discursivas da publicação.

O jornal pressupõe que o leitor acompanha a narrativa, que conhece, intimamente, os personagens. O enunciador acredita que o leitor tem referências para compartilhar a mensagem, como na manchete a seguir:

Jornal Massa!, 08 e 09/10/2011
Antetítulo: ITAPUÃ EM GUERRA
Título: FOFINHO CAI DO ALTO DO COQUEIRO
Subtítulo: Bonde do bandido do Alto do Coqueirinho é preso. Segundo a polícia, são soldados da disputa contra o Bairro da Paz.

Um leitor que não tenha conhecimento prévio de quem é “Fofinho” ou saiba onde fica o “Alto do Coqueiro” vai ter mais dificuldade para compreender a notícia, comprovando que se trata de uma publicação destinada a um leitor que vivencia ou minimamente acompanha o desenrolar da vida das personagens policiais de Salvador.

A escolha da manchete do dia segue muitas vezes o critério do inusitado, daquilo que é surpreendente, que as pessoas não imaginam que possa acontecer, característica evidenciada por Barthes (1970) em seu estudo sobre fait-divers:

Ladrão leva R$ 35 mil em cabelos (15/10/11)
Tocaram fogo no jegue Roberto Carlos (28/12/11)
Responsável pelo enterro do anão (03/01/12)

Essa escolha pela estratégia discursiva do fait-divers não se evidencia apenas nos títulos, ou mesmo na composição “antetítulo – título – subtítulo”, mas também nos textos internos da publicação. Tudo é construído de forma a oferecer ao leitor um texto que se esgota em si mesmo, que siga as temáticas elencadas pela publicação como sendo suas prioridades.

Outra característica marcante das capas do Massa!, e que não difere muito de outros periódicos com o mesmo perfil, é a divulgação de fotos de mulheres seminuas, acompanhadas de títulos provocativos e em situações depreciativas, na primeira página. Em praticamente todas as capas analisadas para este trabalho, constavam fotos de mulheres com roupas mínimas. em posições sedutoras e acompanhadas de adjetivos como “sarada”, “gostosa”, “gata”, “linda”, “malhada”, “musa”, “peladinha”.

Ao se estudar toda a composição da capa fica evidente que o que salta à superfície é um efeito de sentido de inferioridade da mulher em relação aos homens. Além das fotos de garotas que posaram especificamente para o Massa!, há imagens de famosas ou namoradas (amantes, companheiras, esposas) de famosos, que ilustram chamadas para artigos sobre a vida privada das celebridades. As imagens das mulheres têm destaque na página e invariavelmente dialogam com o leitor, que é seduzido e convocado a comungar dessa imagem que o Massa! compartilha “amigavelmente”.

Estrategicamente, o enunciador posiciona as imagens das mulheres em relação constante com a manchete do dia. Na edição de 02/10/12, por exemplo, a chamada principal “Morto na festa de Ano Novo” ocupa o centro e o lado direito da página em toda a sua porção superior, tipologia em caixa alta, cores vermelha e branca, além de fundo preto. O lado esquerdo da página é ocupado de cima a baixo pela foto de uma loira com olhar fixo no co-enunciador, seguida da legenda: “Mulher Pymenta: ela bota fogo por onde passa”. A posição da mulher, para o sujeito enunciador, é a daquela que causa danos, que “bota fogo” e pode matar, inclusive na festa de Ano Novo.

Mais um exemplo foi publicado na edição do dia 19/11/11, véspera do Dia da Consciência Negra. A publicação conclui, como se evidencia no título “Estatuto não é respeitado” e no subtítulo “Mesmo após um ano, o Estatuto da Igualdade Racial que garante direitos dos negros e brancos no país, não mudou a vida de ninguém. Isso porque os negões e negonas não conhecem a lei para poder abrir o verbo”, que a legislação não vem sendo cumprida. A foto que ilustra a capa é de uma negra seminua sorridente.

O tom de toda a composição “antetítulo – título – subtítulo” é de denúncia, porém, a foto que ilustra a capa, uma negra vestida somente com a bandeira do Vitória (time baiano) aparece feliz, interpelando e seduzindo o leitor. A escolha pela mulher negra, bem como da legenda: “Flora pede: vamos subir Negôôô!” não é por acaso. Faz parte da estratégia do enunciador de se posicionar como um jornal crítico, que denuncia, mas que também sabe “viver a vida”, que valoriza a população negra, que está feliz porque, apesar do estatuto não ser cumprido, ainda há mulheres e futebol. Para o enunciador (e, pressupõe-se, para os leitores), a imagem da mulher negra seminua somente valoriza a população negra, apesar de seus direitos não estarem sendo respeitados.

O posicionamento discursivo do Massa!, conforme foi possível identificar na análise, é de ser um jornal masculino, que vê a mulher como vítima ou autora de violência, ou como objeto sexual, que serve de distração aos homens que consomem o conteúdo do periódico, ou que deve assumir sua condição de dona de casa. Faz isso ao escolher temas e enfoques que dizem respeito à vida e ao comportamento das mulheres, estimulando debates com forte tendência moralista e com julgamentos prévios. Três chamadas de matérias são ilustrativas dessa afirmativa:

Prostitutas fazem “blitz do sexo” (21/08/11)
Faxina dá tesão, dizem os cientistas (24/08/11)
Mulher casada deve trabalhar, ou não? (25/08/11)

Por fim, o Massa! pode ser considerado um jornal popular, com foco em conteúdos sobre violência e cotidiano que se posiciona discursivamente como o parceiro do leitor, o que traz as informações sobre o que interessa: futebol, dia a dia, comportamento, violência. E faz isso utilizando as mais variadas estratégias, com destaque para o uso de imagens chocantes e títulos provocativos e irônicos.

Correio* e a busca pela sobriedade popular

O jornal Correio*, embora tenha feito reformulações em seu planejamento gráfico, tanto no formato quanto na diagramação, permanece com uma linha editorial sóbria e consoante com modelos mais tradicionais do jornalismo impresso, quais sejam: uso de fotografias com flagrantes que não interpelam, diretamente, o leitor; títulos informativos formulados na ordem direta de frase, com números que conferem credibilidade e verbos de ação no tempo presente, criando a proximidade temporal com o fato narrado. Tais elementos, aliados a uma paleta de cores pouco variada, com destaque para o vermelho e o preto que compõem o nome do jornal e a tipologia das chamadas, articulam-se de modo que o co-enunciador seja conduzido a hierarquizar os temas que são manchetes das edições. Por isso, a primeira página do jornal Correio* tem, geralmente, uma manchete principal com foto em destaque, mais três ou quatro pequenas chamadas.

Entre as edições analisadas foi possível verificar deslocamentos nos modos de organização das matérias significantes (fotos e títulos principalmente) na capa do Correio*, como a mudança de cor do nome do jornal para se relacionar melhor com o tema da manchete do dia, como na edição de 19/11/11, em que a chamada principal era para uma matéria sobre o feirão do nome limpo – ação que estimulava a população a renegociar suas dívidas e, assim, a capa foi toda construída em tons de azul.

A primeira página do Correio* têm, regularmente, fundo transparente e os elementos coloridos que se destacam são as imagens e os títulos com tipologia na cor preta. Há pouca variação dos elementos, por vezes uma foto destacada ocupando quase toda a página, ou no máximo duas que dividem o espaço que seria para uma. Nem sempre a imagem da capa diz respeito à manchete principal, que geralmente posiciona-se na metade superior da publicação, seguida de um subtítulo; são raros, no Correio*, a utilização de antetítulos com viés opinativo. Além da manchete (chamada principal), a capa compõe-se, ainda, de outras três ou quatro chamadas para outras matérias.

Essas mudanças de regularidade discursiva podem parecer discretas, se analisado o conjunto de edições, porém, é relevante sua identificação porque demonstram uma estratégia da publicação em posicionar-se, primeiro, como um jornal sério, sóbrio e atento em bem informar o leitor, mas também como um periódico em processo de transformação, com uma proposta de se relacionar de maneira menos rígida com o leitor, de modo que a diagramação revela uma publicação que trabalha para agradar e seduzir seus leitores.

Entre os temas que se destacam na capa do Correio*, ou seja, que são definidos pelo enunciador como possuindo maior valor-notícia e atendendo melhor aos desejos dos leitores, estão esporte, cotidiano e economia. Todos os temas, porém, são perpassados por um mesmo discurso: o da relevância prática para a vida cotidiana do leitor. Mesmo as manchetes de esporte, exclusivamente sobre futebol entre os exemplares analisados, cumprem a função social de ser um conteúdo de entretenimento, ao lado das notícias sobre cultura, com grande valorização dos artistas baianos.

As manchetes de economia, por sua vez, têm como foco principal os assuntos que mais interessam à vida diária do leitor, enquanto trabalhador ou chefe de família que busca estar informado sobre novas formas de renda, qualificação profissional e boas oportunidades de investimento ou para se livrar das dívidas, em detrimento das grandes questões da macroeconomia nacional ou mundial. O olhar é para aquele tipo de economia que interfere na vida das pessoas, de preferência com teor de orientação. Seguem alguns exemplos de títulos e os efeitos de sentido que fazem chegar à superfície discursiva:

– Pedagógico ou orientativo:
Feirão do crédito em Salvador – Limpe seu nome em até 24 meses (10/09/11)
Concursos abrem mais de 12 mil vagas (25/12/11)
Guia do Universitário (27/12/11)

– Boa notícia – vantagens para o trabalhador:
Zero km encalhado tem acessórios e IPVA grátis (07/09/11)
Seguro desemprego tem aumento de 14% (31/12/11)
Liquidação de Verão tem desconto de 70% (06/01/11)

– Má notícia – perda de renda:
Aposentados perdem dinheiro com inflação (07/01/11)

As chamadas de capa sobre temas do cotidiano são em geral sobre histórias de superação, vida das celebridades e, principalmente, acompanhamento de ações do poder público, seja divulgando o início de algum programa, seja criticando o que não está bom na cidade ou no estado, em especial nas áreas de saúde, trânsito, urbanização e segurança pública. As denúncias acerca do mau funcionamento de serviços públicos e do abandono da cidade colaboram para o Correio* posicionar-se discursivamente como uma publicação que é o “olho do cidadão”, aquela que está atenta e cobra uma vida mais digna para a população, portanto, seduzindo e fidelizando os leitores.

Quando a decisão é dar destaque, na primeira página, a uma notícia sobre violência, o enfoque é pela informação geral e não para o fait-divers, como faz o Massa! com mais frequência. Entre os exemplares analisados, foi possível aferir que, embora o tema seja violência, o jornal quase não destaca, em sua capa, a casos individuais, ou seja, uma prisão ou uma história violenta, mas pesquisas e dados gerais, como, por exemplo, a capa do dia 29/12/11 que traz como manchete “Violência ameaça paraísos turísticos” informando, no subtítulo, que a criminalidade tem afastado os turistas e assustado os moradores de cidades como Porto Seguro, Morro de São Paulo e Itacaré.

As gírias e as ironias são raras, porém, existem e normalmente aparecem vinculadas à linguagem usada no futebol ou pela polícia, como “ganha de goleada” e “dá chabu”. Termos que, ao serem incorporados à linguagem cotidiano cria efeito de sentido de maior proximidade com o leitor, fazendo com que as pessoas se sintam irmanadas com o que o enunciador propõe como leitura.

O jornal se posiciona, a partir do que pode ser analisado na composição da capa, ou seja, a partir das estratégias discursivas expostas pelas relações construídas entre as matérias significantes, e também analisando a auto-descrição da publicação, como um jornal indispensável, aquele que informa “o que a Bahia quer saber”, segundo o slogan que acompanha o nome do jornal.

Dessa forma, o sentido que surge na superfície discursiva é de uma publicação atenta às expectativas do seu leitor, construído pelo enunciador para direcionar suas escolhas e decisões editoriais: fotos, títulos, hierarquia de matérias e chamadas. O próprio nome remete, semanticamente, àquele que traz a notícia, que leva a encomenda, que transporta não só informação, mas também um produto, no caso, o conteúdo informativo. Fazendo essa alusão, é possível inferir, então, que o Correio* é a publicação que se posiciona discursivamente como aquele que leva a informação relevante, aquilo que o leitor quer e precisa saber para conduzir suas escolhas no dia a dia, para divertir-se, bem como para estar em consonância com o que os demais integrantes do grupo formado pelos leitores do Correio* compartilham: saberes, discursos, crenças, necessidades e expectativas.

Considerações finais

Com o avanço dos jornais direcionados às camadas populares, cada vez mais assuntos privados passam a ocupar o mesmo espaço dos temas públicos nas páginas das publicações, em maior ou menor presença de acordo com as estratégias definidas pelo jornal. Histórias cotidianas, violentas ou curiosas, seduzem leitores e posicionam os jornais em seus espaços de concorrência. Na busca por anunciantes, assinantes e leitores de bancas, os jornais Massa! e Correio*, analisados neste trabalho, constroem estratégias discursivas próprias para atingirem o mesmo objetivo: conquistar a confiança do co-enunciador e mantê-lo fiel à publicação, cumprindo as expectativas desse leitor, que quer ter acesso à informação, mas não qualquer uma: quer aquela informação que o jornal se comprometeu a compartilhar. O Massa!, com a informação extraordinária, com enfoque quase exclusivo no tema da violência recheada de dramas cotidianos. E o Correio* com a divulgação de notícias de interesse geral, embora adotando um formato considerado mais popular.

A análise do posicionamento discursivo do Massa! e Correio*, exposto em suas capas, verificou o modo de articulação das matérias significantes como títulos, imagens, temas, verbos, cores e organização desses elementos, e identificou regularidades, divergências e convergências. Entre as estratégias identificadas tanto no Massa! quanto no Correio*, estão a linguagem mais próxima da oral, imagens de vítimas ou acusados que interpelam diretamente o leitor, uma diagramação mais informal, como parte dessa prática de estabilização do sentido de violência na sociedade a fim de transformar o acontecimento imprevisível, o acidente, o crime, em rotina, naturalizando-o.

O estudo comparativo das capas possibilitou elencar também diferenças de posicionamento discursivo dos jornais analisados. O Massa!, por exemplo, posiciona-se de maneira machista e moralista com relação à situação da mulher na sociedade e de modo irônico e sensacionalista quando o tema é a violência urbana. O Correio* posiciona-se de modo mais sóbrio e com certo distanciamento com relação à temática da violência, tendendo a veicular acontecimentos mais generalistas, não tão focados na personagem em si, como faz o Massa! quando divulga prisões e ações policiais. O Correio*, de seu lado, quase não destaca, em suas capas, casos individuais e particulares, ou seja, uma prisão ou uma história violenta, mas sim pesquisas e dados gerais sobre violência ou outro tema, como economia.

Em resumo, a análise dos veículos impressos constatou que a relevância do tema da violência, enquanto valor notícia, era diferente nos dois jornais, sendo o Massa! aquele que prioriza, principalmente em suas capas, as matérias sobre violência. Embora algumas estratégias discursivas sejam diferentes, os jornais populares baianos Massa! e Correio*, como vitrines de fait-divers que são, constroem sentidos da violência aproveitando que a temática já é, por si só, um atrativo especial, pois comove, choca e revolta os destinatários do conteúdo da publicação.

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NOTAS:

Artigo publicado nos Anais do IX ENECULT, 2013. Disponível em: http://www.cult.ufba.br/enecult/anais/edicao-2013/

[1] Jornal popular é um produto cultural destinado às classes populares (B, C e D) e que tem como linha editorial o foco em matérias de serviço, comunidade, violência, mas sem aquele apelo ao tripé crime-sexo-escândalo, prática comum das publicações até a década de 1980 (AMARAL, 2006).

[2] Informações disponíveis em www.ivc.org.br

[3] Embora não esteja entre os objetivos deste trabalho identificar como o co-enunciador, ou o destinatário, reconhece e se relaciona com as publicações analisadas, é importante afirmar que, para a construção do seu posicionamento discursivo o jornal configura para si um leitor presumido, ou, nos termos de Umberto Eco (1986), um “leitor-modelo”, para quem a publicação irá direcionar suas decisões estratégicas em termos de enunciação a fim de estabelecer um relacionamento cúmplice e fiel com seu leitor, atendendo às suas expectativas, que podem ser tanto de informação quanto de entretenimento.